quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Pra'lém do sonhar comum ...



Pra'lém do sonhar comum,
O essencial é não sentir comum demais ...




Pra lá do eu, meu coração é o sonhar meu,
Tudo de resto é o fora de mim e o já agora,
A solução é não sentir o comum demais e o
Que real mais parece a mim, sem precisar de

Sonhos menos dúcteis, tão gerais quanto os
Monstros mortos ou a dócil paixão, segundo os
Logros vivos, como eles naturalmente sentem
À hora do chá e às cinco, n'ametade de tarde

Certa, parada quanto um jogo de premissas
Falsas, aleatoriamente bem verdadeiras, assim
É a nata do leite puro, para não sentir comum
Demais, a respiração aposta nas palavras tácteis,

Segundo uma dicotomia de escravo e seu dono,
Não se tocam e quando acontece o sonho morre,
Produzindo um som profundo embora leve,
Difícil de explicar escrevendo, se nem por gestos...

A unidade mínima na escrita, é o desassossego
E a solidão de quem escreve, uma anátema,
Porque escrever é o complexo e não a virtude,
É o erro e não o Graal que chamam de linguagem,

O ritual mórbido, que não há maneira de definir,
Senão pelo exagero, pois não existem palavras
Justas que definam o caos, a exegese do desapreço,
O menos cómodo dos suicídios e o cativeiro,

É o agir contra nós próprios que nos torna
Inteiros, embora estrangeiros em nossos fragmentos,
Como se fossemos um armazém de cabides
Desorganizados, onde penduramos fatos de outros,

Sensações anónimas e abomináveis, intervalos orgânicos
De conversas que não desejamos nos curtos metros
Quadrados desta nossa alma enviesada, cansada
De colóquios e considerações de precisão volumétrica ...

(O essencial é não sentir comum demais)





Joel Matos 10/2019
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Sonhar é cabelo,





Sonhar é cabelo, nos ombros a razão fala
E murmura o que persigo, se é verdade de leigo
Ou ilusão de passageiro, Encaro o que escrevo,
Sonhar em cabelo, idioma raro, não sei lê-lo,

Não sei sê-lo, erro ao explicar o credo sendo
Eu imperador dos descrentes e dos rochedos
Negros, atavio de profeta cuja incapacidade
Apesar de empolgada, mil vezes lida à peça,

Não contém profecias nem interpretações
Cabales ...Tenho ego de "formiga-d'asa"
Partilho estrelas num céu que, cego eu nem vejo,
Sob o tecto da minha minga casa,

Distinto, apenas o cachimbo
De boca, "à Torga", posso argumentar como fosse
Poeta mas confundo o luzir das velas,
No brilhar de mil e uma telhas ...

A química do universo começou com HeH+,
Numa espécie de "panspermia química",
As paisagens, tão admiráveis como quadros
Entraram-me pelos olhos adentro, querendo

Que algum Deus os criou com velas de perto,
Pano preto, braços estranhos, tanto quanto
Eu, tão cheio a "esperantos" mudos, cansaços
Quanto o Mundo pode causar-me nos olhos,

Tantas musas causas, tantos pregões longos,
Lembram cavalos cinzentos, cavalgadas sísmicas,
Funestas. O vento é um fluído volátil,
Ainda assim, fugidio o sinto como o tempo,

Acariciando-me o cabelo raso e ao ouvido táctil
Dizendo:
-Vem comigo, vem comigo, vem comigo...
Antes que se faça tarde, sonhar é cabelo …










Joel Matos 10/2019
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Doce manifesto da vida



Doce manifesto da vida ...





Complexa expressão de tributo, presta
A arte à dor como impressão de prazer divino.
Se eu soubesse que a tal me completaria,
Deixava completamente de a ter, amarga,

Substituía-a por outra abominável sensação,
Que evocasse o vazio nulo que contemplo,
Sendo seu falso monarca ou subordinado atento,
Como só grandes homens o são, condenados

A um paliativo degredo, ainda que imposto
A quem homenageia, numa manifestação
De triunfo, a amargura complexa, mimética
Igual quanto a dor é e desperta em mim,

Nivela-me a quantos têm na vida grandes
Sonhos, sem que os ponham de lado, levando
Consigo demasiados bocados da alma e pés,
Sem terem quem os reanime, batidos, derrotados.

Nada mais me dói senão a lucidez do dia,
De facto atrai-me o que repele aos outros,
Não me submeto ao conforto da opinião alheia
Como uma panaceia, cultivo a liberdade

De espírito assim como o desprezo do real,
Pois só o temos do lado que vemos, não do
Aposto do olho, deselegante e rude, porém
Divino tanto quanto pode ser a dor, um doce

Manifesto de vida...






Joel Matos 09/2019
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Tudo em mim





Tudo em mim, minha pele, paredes, tecto,
Embrulho de jornal, papel e texto, tudo enfim
Era, é falso, porquanto normal, alheio, tudo
Em mim disfarço, pele, parede, embrulho,

Jornal não leio, detesto-me, vegeto, teimo
Me achar, descolo-me d'tudo o que a mim
Pouco sabe, na fala começo a parecer não
Eu mesmo, mas um outro que não lembro,

Pois nem leio, tudo em mim é a fingir, até
O fingimento sem remédio me flui pelos
Poros dos dedos, sou uma fraude, desfaço-me
Como um peixe de viveiro, grelho mal,

Sou asfalto de tarde quente, queria tanto
Ser "Mastim", sendo mal-cuidado, "Tuga
Podengo" de França, podendo ser Chinês,
Argonauta poliglota de Minas Gerais,

Que me importa se nem o estóico Zenão
Me representa como humano destinado
A apenas e inexoravelmente sê-lo, tal-qual
Quanto a fealdade do logro e da carraça preta...






Joel Matos 09/2019
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Ânsias ...lais de guia...




Lais de guia...Ânsias ...




Ânsias ...


Ritmadas, como marés e pausas, anciãs
E o mar e eu morto, numa outra extrema,
O meio do mundo e mais pr'aquém a glote,
Que alguém dum simples e forte fôlego,

Possa ou tem e vença o ar e tenha igual, pantanoso
Este mar Norte, se querendo repousar, cordas,
Marés de pausas, lassidez de causas, antigas
Praias de poucas coisas, senão conchas gastas,

Marés baixas, sujas e mortas musas, lastro,
Rotas as marés vasas e as vozes laças, rosas/lanças
De quem lá mora, morou, morava, fui levado ...
Nem marés, nem caudais, nem as ondas no cais,

Lá morrem, morrerei eu de novo, neste
Ou num outro lado, dum outro estranho e
Novo mundo, cordas e lastro, corda e lastro.
Corda e lastro...lastro e cordas, lais sem guia,

Ânsias ...ânsias de morte.



Joel Matos 08/2019
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Hino ao amanhã



Hino ao amanhã



O bater de asas de uma libélula,
Pode gerar seca no Nordeste do Brasil
E um Tsunami no Japão de Prestes,
O que penso e digo sim, é não,

Dependo apenas da brisa frequente,
E do brilho de muitas vidas dessas,
Assim como um ribeiro da água,
Que chove ou não e se faz caminho,

Que brilha ao brilho de imensas
Gotas, nas asas de uma libélula
Ou colibri, não basta eu chorar,
Sonhar, sentir, pra que seja verão

Na América do Norte ou Istambul,
No cetim das asas de uma abelha,
É sempre nítida a luz e o movimento
Do mundo, que volve como um hino

Ao amanhã e ao meu depois de mundo
Andado, pra diante e pra frente
Desde a América do sul ao Oriente
Do João-Sem-Medo, o Príncipe-Burro,

Definitivamente não sou ninguém,
Dependo do vento, tornou-se-me
Estranho o mundo e o encanto
Que não me faz encarar o céu futuro,

Não me faz chorar, não o sinto
Ainda que o amanhã seja lindo, será outro
E não a mim que soprará o vento,
No bater de asas de Colibris ou Alvéolas ...






Joel Matos 06/2019
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Aconteço "por-acontecer"




Fui destinado a acontecer, ou
Afinal que acontecimento
Diferente sou eu, se há nele, no fundo
Não o destino que me caiba

“Acontecer”. Não aconteceu
Nada a mim de meu, apenas
Fui destinado a ser comum, só eu no final,
Tudo é de outros e não creio

Ser mais do que ouso, dispo-me
Do que uso e do que não me serve,
Excepto o ruído do campo, tão leve e
Único indício que me distingue

De outros que acontecem fugaz,
Como gado validado de gente,
Fui destinado a acontecer desigual,
Eterno o sonho em que sinto que a vida,

"Acontece-por-acontecer", devagar...
Renuncio ao sonho, descrevendo-o
E à minha nudez sem talento,
Espontânea embora estranha.

Foi destinada a ser e sobretudo,
Mas não sei quando ou quanto
Talento valho no talho do logro, sendo
Talhante eu próprio de mim mesmo,

Tenho coração de touro e carne
De "Lord" mas ainda assim de
Alguém que, no lugar dele mesmo
O tem, sem saber que tem esse

Único bem, que é meu e nem me serve,
Talvez tenha eu um outro e outro,
E pense não ter nenhum aqui dentro,
Embora saiba o que é ter não

Coração d'outra gente, colado
Que nem meu ao corpo, se o
Mesmo sinto como sendo eu
pouco, até na dor que ocupo

E outros têm e não eu, culpo
Um coração que não
É meu de todo, é do mundo inteiro,
Coração que a todos

Dei, todavia não tenho
Nenhum batendo de momento,
De verdade junto ao peito,
E isso não me dói tampouco,

"Aconteço-por-acontecer",
Fui destinado a não ser final,
Comum ponto.













Joel Matos 05/2019
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Pra'lém do sonhar comum ...

Pra'lém do sonhar comum, O essencial é não sentir comum demais ... Pra lá do eu, meu coração é o sonhar meu, Tudo de resto é...