quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Por cada desejo meu...


Quero que, cada desejo meu,
Tenha aviso de despejo,
Já que minha alma cheia, encheu
De mil batalhas, todas sem despojo…

Não sei fazer mais nada,
Senão celebrar o que não persigo e não digo,
As conquistas são o sermão e a soda
Sarcástica, por qual rojo e me esfrego,

Detestasse eu a ferrugem,
E seria um prego de ferradura,
Apodrecido num chão de forragem,
Numa estalagem d’outra terra…

Um desejo que ainda perdura
Dela, são das tabuas, o rangedo,
Assim minha poeira pousa, afora
Do contexto mais desconfigurado,

Que o meu ensejo tem,
Hóspede de nenhum lado,
Vago e magro, sem vintém…
Porém ouço-me seduzido…

Viro-me mas não sou eu
Com quem almoço, mas o nojo
Que minha escrita fede a meu.
Quero que, por cada desejo

Despedido outro seja réu,
Talvez o de pompa, porque não?
Se todo o meu instinto se perdeu
No ânus de um cão…

Joel Matos (02/2013)
http://namastibetpoems.blogspot.com

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Quando eu despir a veste que me liga a este mundo...


Quando eu despir a veste que me liga a este mundo,
Não haverá quem me recorde, nem ruirá uma metrópole,
Serei mais um túmulo, serei passado, serei eu, mudo
E as pessoas rindo, como sempre fazem, no funeral

De um ente seu, que se perdeu, perdeu a fé e a veste…
Não mais poderei contar-lhes eu da viagem
Que podem fazer, do prazer em viajar de paquete,
Contar-lhe como era…ou seria, se viessem…

A delegação fica mesmo ali, ao fundo dum jardim,
Depois d’um arco pequeno e num portão  ao lado,
Entra-se numa ala desolada, de aspeto ruim,
Um cais e um barco, transversalmente atracado,

(Pois assim é que o imagino), a onda a quebrar-se
E o apito forte antes que o sol acabe
E a luz que acende o convés e o som maquinal que cresce,
Consciente de ter no coração o que na terra não coube…

Quando eu despir a veste que me liga a este mundo,
Pousarei a capa e não me importarei que minha roupa vista,
Qualquer homem comum, durante o entrudo,
Porque o meu desejo é ficar sozinho e nu, despido de ponta a ponta,

Pra que a fantasia, não tenha com que se cobrir
E continue a navegar nua, por aí, à toa…

Joel Matos (02/2013)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Pobre senil o que conta o tempo e passa de rompante...


Conheci um ancião que desconhecia as horas,
Supunha eu que queria esquecer-se delas,
Fatigava-o o tempo e a orbita dos ponteiros,
Media a data pela luz que caía por atrás dos óculos,              

Não precisava dar corda para auxiliar o passar do tempo
E a jornada, não precisava de nada pra se lembrar,
Das rugas ou se a primavera desse ano, chegaria mais cedo.
Encontrei-o num beco qualquer- pareceu-me vê-lo chorar-

Como qualquer outro faria, perguntei, sem razão:
(Não que quisesse saber, mas por mera simpatia-como ia!?-
Afinal conhecia-o, como mal se conhece qualquer ancião,
Baixa-se os olhos e finge-se pressa, mas com cortesia.)

     -Perdi o tempo que a vida me deu no começo,
Mas acordo sempre com a alma submissa ao dia,
Confiando no mistério que é a vida e no ritmo do universo,
Fi-lo conscientemente, com convicção divina e sabedoria,

 Aprendi a embalar o vento, nas batidas do coração…
A floração à luz da lua, na suavidade da noite, a textura dos céus,
Na frescura das manhãs - nem sabes tu, como é a canção
Da rola ou o coaxar da rã no charco, – nem dizer adeus!

Mas o nosso destino é o mesmo, pouco importa a morte,
Venha cedo, ou tarde, a velhice é a ordem natural,
Pobre senil, o que conta o tempo e passa de rompante…

Joel-matos (01/2013)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Quando eu morrer actor...


Anónimo o que recito mas não o que aceito,
Como meu, anónimo o que visto doutrem e dispo,
Alegando meu porém, anónimo tatuado por delito,
No peito, anónimo tenho todo o meu falso corpo.

Nada me ocorre que não seja d’outrem,
Sou a aragem do logro que percorre a tumba
Dum morto, dando vida aos que jazem e aos que sobrevivem,
Faço parte dessa paisagem lobrega e romba

E de que, os pertences escritos rouba
Aos notáveis mortos, um pilhador de túmulos,
A eito, profanador até do sagrado kaaba…
Ignoto o suor dos meus impuros poros…

E o acto de escrita pouco lógica e de louco…
Se nem, o colchão em que me deito, é meu… o poluto
Fato, roubado no museu teutónico.
Por isso, quando eu morrer actor,

Jamais a noite se tingirá de luto preto…

Joel matos (01/2013)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Dai-me esperança...


Dai-me os dias que lá vão,
Dai-me as mãos do velho,
Que não sendo minhas são como as de um irmão,
Dai-me a tempera dos vinhos
E a profundeza das vinhas
E dos lavrados rostos dos avós,
Das charnecas e das flores no Maio,
Da ribeira a aguar e do pardal a piar,
Dai-me o que não tenho,
Uma manhã mineral e um sorriso a dois,
Partilhados em linho e mel,
Um vale, um postigo e uma tocha pró caminho,
Um castigo merecido o chinelo e o berro da criança,
Dai-me o áspero bramido do gado,
A terra descalça e a mulheraça roliça,
Dai-me os sinos d’aldeia, um candeeiro e um padreco,  
A alcateia, a caça e o estio,
Dai-me o que não tenho,
A imensa esperança e o orvalho na floresta,
A roupa lavada no rio,
Dai-me um pintassilgo e o silvo do melro,
O ladrar do cão e o ovelhedo,
Dai-me a graça dos dias que já lá vão,
Da velha quinta, do madeiro natalício e do porco,
Da matança…do sorriso da vizinhança,
Dai-me esperança porque da pouca que tenho,
Sobrevive est’alma…
…e da mencionada lembrança


Joel Matos (01/2013)

domingo, 13 de janeiro de 2013

pressagio de tudo por quase um nada


Eu sei que pressagio de tudo por “quase um nada”,
E se de alguma coisa haja que me desconvença,
È porque nem mereça quiçá a pena
Profetiza-la, sabendo-a provisória, resma miúda.

Tudo o que já foi e ficou dito não mais o é nem será,
Desde que não mais me soe ou sinta essa má sina,
Mas se parece doer a dor que já me não dói até,
É porque o ontem falhou, findou a trégua, acabou …

Pra trás ficou enterrado o palio vício, da simples fé
Do ontem, que me deixou assim vencido, prostrado, cansado.
Mas o que me deixou sim, vazio… foi uma filha doutra fé,
Só porque endoideci, me deixei ir e fui, na maré…

E hoje o dia é já outro, embora com este pouco se pareça,
Nebuloso e frio que nem a margem do cadafalso, sem armistício,
Pálido como o jugo de perfil da rês, pouco antes da matança,
Lírico, como o lúcio litúrgico banhando-se nu, num rio..

Entretanto o povo troça, a corda roça, lassa, o meu coração,
Parecia distante mas, de perto, vejo tece-la, uma cobra branca…
Negro o cortejo e os gritos do gentio,-morte ao charlatão-morte-
Mas alguém, d’entre estes viu, o sorriso nesta minha boca…

Eu sabia que est’alma encarnaria uma outra
Porque pressagio tudo por “quasi nada”…

Joel Matos (01/2013)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Ainda hei-de partir por esse mundo afora montado na alma d'algum estivador


Tenho a alma tosca d’um estivador,
Que tanto me dói de tão dura,
Não fosse furada por uma grossa goteira,
Não teria maneira d’achar outra dor,

E eu estimo o que por ela andei,
P’las milhas em meu redor,
Amachucando no íntimo a lei,
Que dizem que existe no país do rancor.

Lastimo estas dores ilegais,
P’lo que delas na alma ainda perdura,
Mas da pele tesa dest’estivador do cais,
Gretou apenas a branca rija salmoura,

Por dentro, ond’era mais precisa,
Permanece fluida e convive,
Comigo de forma branda, religiosa
E leve…

Tenho alma d’estivador sem terra e sem destino,
Olhos prenhos do que no mar em redor
Encerra, embarquei na noite, clandestino,
Numa caravela e posso finalmente rir sem pudor...

Por esse outro mundo afora…

Joel-matos (01/2013)

Pra lá do crepúsculo

Pra lá do crepúsculo Deixei de ser aquele que esperava, Pra ser outro’quele que s’perando Em espera se converteu, alternando Despojo com eng...