quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Nunca darei notícias...




Nunca darei notícias, contudo
Virei sedento, do que vi por dentro
E do que trouxe do silêncio,
Das esquinas caiadas, de prata e nata.


Visto que morei na rua, nunca darei notícias,
Aos que quero tanto,
Virei com vontade atenta,
E lembranças na pele, do trajecto.


Virei com a lembrança da cal na boca,
Virei do encontro no espelho, com o nada,
Virarei ruas, cidades e ruas sem idade,
Vinhas de religiosas terras, iras e paixões.


Vi os lugares inclinarem-se-me e as estradas,
Vivi as terras, vi estrelas e profanei equívocos,
Nos serões normais, fiquei comigo, e nas paisagens do trigo.
Visto que sonho demais, nunca darei notícias,


Meus passos serão como os deles, lajedos puídos
Mas o meu coração estará descalço, longe,
Ainda que perto, das coisas simples, formais,
Fugindo de um corpo encantado.


A chave do dia será o pensamento,
A volúpia do singelo e o variável,
 O sobressalto da escada, sem corrimão,
-Vi uma dessas em parte alguma, na lua


E na soma dos instantes, do passo lento
E o longe simulará o perto ou a aparência, o incerto.
-Nunca mais voltarei a rasgar desesperos
E a fingir que atravessei continentes…


Joel Matos (12/2013)
http://namastibetpoems.blogspot.com

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Encalho, agacho, acobardo...e morro.




Sou consciente do que penso e procuro,
-Procuro-me tão-somente,
No conhecimento, mas inconsciente
D'o não haver, onde tanto o procuro,


Ainda que houvesse, um farol faroleiro
Do sentir do meu pensamento,
O afastaria de mim, estaria oculto
Quanto, sob intenso nevoeiro…


Pensar…pensar tão-só, quanto o pensar
Mente e se encobre, n’algum ser ou coisa
Inconsciente, como pensar que nem se pensa,
Embora seja ela, a causadora aparente do pensar.


Sou consciente de que procuro,
Um inédito conceito do real, ainda por pensar,
Porque sem o peso da memória, não terei logradouro,
Nem este vil cais, me irá ver morto, embarcar.


Talvez como eu, seja aquela puta, sem opção,
De bar em bar, repartindo o cadáver morto,
Mas sonhando-se prenha, d’algum Nobel da ficção,
Que a penetrou fundo, por um gol d'absinto.


Sou ciente do pensar que procuro,
Ser mais venal, que o comum pecado,
Mais impuro, que o despudor, em estado puro,
Mas num mar de bruma m'encalho, agacho, acobardo…

(E Morro)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Bebamos...palavras.


Embriago-me, pra que
Todas as palavras de mim,
Sejam parte do tinto…vinho,

Pra que todas as partes de mim,
Sejam "trucadas", invertidas
Reinventadas, torcidas e moldadas...

Não é mais minha, a palavra
Ou o Dom, é um tudo e um nada,
Depois de ser escrita e “fundida”

Ou "tocada" por olhos, pálpebras
Ou orelhas, quer furadas, quer não.
Escrevo embriagado…

Por isso digo, por isso trago
No peito, na braguilha e no bucho
O mosto quente, por isso, o derramo,

(Por um nada) …

Um enigma, uma visão,
Uma gralha, uma fala,
Que sirva pra profanar o lugar-comum,

Por isso ofereço, dou a palavra,
A quem tiver por prazer
Beber comigo.

Vai mais uma rodada,
Bebamos as partes do corpo
Duma vezada, por uma razão qualquer.

Ah…eu bebo por desdém,
Também.

Joel Matos (12/2013)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Com'um pensamento que te s'crevo...


 COMUM…

Não sendo meu, o que escrevo e penso,
Sinto-me escravo de sentidos d’outra gente
Que não eu, embora possa ser o desespero
Meu, o qu’essa gente de escreveres sentiu,
Antes d’ser meu, o pensar qu’esse alguém, m’deu…

Talvez m’alumie, ou não, um comum
Deus de gente, porventura contraditória….
Talvez nã’ s’importe  Ele dos pensares, (antes d’meus,
Serem d’outros e d’lugar algum).
Não sendo meu, o que penso e’screvo,

Coleciono ilhas no pensamento, ó invés d’covas
Na praia, como fazem, tod’as crianças
E uma suprema dor, sem que saiba o porquê
E por’quando,
Tendo a sensação, de nada ser meu,
Mas, de nos ossos ter, como tant’outra gente.

(Como singular direito), a tristeza d’esta Terra toda,
-com'um pensamento que te s'crevo-

Joel matos (11/2013)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Pudesse eu...


Pudesse eu, não ter laços
Ou esperança,
Cair no poço sem fundo,
Com que sonhava em criança,

Pudesse eu, na garganta sentir,
Torturante,
A dor no parir, perto ou distante
E o choro aflito dos qu’hão-de vir.

Pudesse eu, fazer
-“O que me dá na gana”,
Não morreria numa cama,
Escolheria viver enterrado,

Sentindo o peso da terra,
Amontoada na tumba,
E os caniços, varando-me a cara nua,
Numa sensação boa,

Pudesse decepar eu, os braços
E salvar a dor
Na alma,
Não seria estranha,

A sensação tamanha de sentir,
Que deveras sinto…

Joel Matos (10/2013)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

(Na cidade fantasma que é o meu pensamento)




O meu pensamento é uma cidade fantasma,
Ruas suspensas, submissas ao tempo, ruínas de templos
E os gemidos dentro das casas, (acaso possuíssem alma)
Seriam ténues, não me prendessem tatuagens nos braços

Nas frases austeras que um esquecido astrólogo segreda
Ao meu pensamento. É uma cicatriz que dói, aberta
Quando se remove com a unha, pra não ficar dedada.
O manto da invisibilidade é a sua cómoda coberta,

A manta de lenços e papel que absorve qual mata-borrão
(Fico sem saber se é natureza murcha ou decalque da morte)
E depois me atira ao acaso, nessa cidade de casas sem chão,
Fixas no ar, vazias de tudo, como absurdas obras de arte.

O inesperado e talentoso verso pode nem surgir nele,
Como por encanto, mas por enquanto, vai alternando
Entre ouvir-me e surpreender-se a si próprio, do seu pensar
Estranho. Às vezes tenho pena de quem não imagina, tendo

Eu, nas mudanças de rumo deste pensar, a visão máxima
De assombro, quando dou por mim no fim, a voar sobre campos
Que não sabia existir no inicio e a cidade se alastra e o tema
É o poema e ele se transforma, na casa dos meus sonhos,

(Na cidade fantasma que é  o meu pensamento)


Joel matos (04/2013)

terça-feira, 19 de março de 2013

Vivesse eu na paz dos imortais




Vivesse eu na paz dos imortais

Tivesse eu, fé nos lábios meus, quando escrevo
E majestade nos dedos; resgataria o frenesi
Cativo nos frutos da paixão, tornaria servo
O aroma do azul motim e o esplendor da relva no jardim
Tivesse eu, a fé de recheio em mim, como um ovo,

Que nem humildes nuvens me suspendem os beiços,
Como posso sentir, o sentir de Deus, em “technicolor”
E alterar o pão em vinho se depois, reparto pedras, teixos
E amostras sem valor de poemas “multiflavor”.
Antes que os medos e o receio me vençam, quero ter dedos,

Como se falassem a Deus, na fala de Prometeu. Se s’crevo,
O que não diria eu, sendo dele, pra’além d’afiançar
Ser sentido, apesar de não ser real, o meu canceroso acervo.
Vivesse eu, na paz que os imortais assumiam como seu samsara
E pudessem minhas mãos florescer, na estação do novo,

Teria eu, fé nos lábios meus, enquanto soberano
E poderia ter ameias de plácidos castelos, nos rombos dedos.
Vivo eu no contraditório dos normais,
Sou desconhecido nesse paradeiro e meu dom,
Habita escondido, sem o saber, no coração dos imortais…

Joel matos (03/2013)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Poema Con-Dom


No meu reino soberano,
Literal e literário,
Vivo danado e mundano.
Apesar de não cometer adultério,

Sou moralmente insubmisso
Ao casamento, como ofício
Santo, casto e excelso.
A minha fé é lei e um seio,

E as sedas dos soutiens,
Minhas donzelas e amantes,
Os mamilos…ah, os mamilos
Citrôenes, dois sinetes elegantes.

No meu reino soberano,
A soprano é-o, de coração
E é nela que me venho,
Num peculiar padrão,

Fardado de tenor solteiro,
E patrão do esperma.
No meu reino, sou rei
Do que é ser poema

Liberal e libertário,
Sou o serralho d’um pragano,
Pingo de galheteiro,
Delegado do engano.

O meu mundo não é Terreno,
E mais dia, menos dia, mando
O reino pro aterro,
E demito o Dom…

Joel Matos (02/2013)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Houve tempos


Houve tempos em que os sons do celuloide valiam
Mais do que simples palavras, momentos
Em que as imagens saíam do ecrã do cinema
E eu sabia de cor o que diziam os lábios mudos,

As mãos vacilavam, nervosas sob a luz tremula,
Ansiosas pelo toque da companheira do lado,
Suspendia-me na respiração solene dela,
E esquecia o enredo da película que estava vendo,

Na frágil ilusão do filme, esquecíamo-nos da noite,
A vida corria como se fosse uma original edição,
E o que se passava na tela era tão naturalmente aceite
Que orvalhava os olhos e acelerava a pulsação.

Não havia ontem ou amanhã, o tempo esvoaçava,
Espantávamo-nos com a nossa timidez espontânea,
As juras de amor seriam aceites? Saberiam a saliva?
Ou a salva da pastilha-elástica? Sei que provocavam insónia

E repetia tantas vezes o mesmo nome até ficar exausto,
Mas era como se o trouxesse, dentro de mim grudado,
Mesmo depois, quando ficava sozinho no meu quarto,
Recordava os momentos com ela segundo a segundo,

A despedida à porta da sala de cinema, pungente,
Acaso morresse de sede, tendo um rio de agua a porta,
O coração que queria voar, preso por uma corda
À garganta até faltar o ar, a frase não sair autêntica…

Também não eram mais que simples palavras,
O ágil rumor das folhas, nas árvores
A caminho de casa, reclamavam das minhas
Acanhadas frases, saciadas com um beijo na face…

Houve tempos em que me encantava 
por tudo e por nada


Joel Matos (02/2013)

Doze

Doze -Doze nós, tem uma figueira Ao medir-se dentro de nós, em vidas Que a gente tem e não sabe explicar, -Doze é a di...