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A mostrar mensagens de 2013

Nunca darei notícias...

Nunca darei notícias, contudo Virei sedento, do que vi por dentro E do que trouxe do silêncio, Das esquinas caiadas, de prata e nata.

Visto que morei na rua, nunca darei notícias, Aos que quero tanto, Virei com vontade atenta, E lembranças na pele, do trajecto.

Virei com a lembrança da cal na boca, Virei do encontro no espelho, com o nada, Virarei ruas, cidades e ruas sem idade, Vinhas de religiosas terras, iras e paixões.

Encalho, agacho, acobardo...e morro.

Sou consciente do que penso e procuro, -Procuro-me tão-somente, No conhecimento, mas inconsciente D'o não haver, onde tanto o procuro,


Ainda que houvesse, um farol faroleiro Do sentir do meu pensamento, O afastaria de mim, estaria oculto Quanto, sob intenso nevoeiro…


Pensar…pensar tão-só, quanto o pensar Mente e se encobre, n’algum ser ou coisa Inconsciente, como pensar que nem se pensa, Embora seja ela, a causadora aparente do pensar.


Sou consciente de que procuro,

Bebamos...palavras.

Embriago-me, pra que Todas as palavras de mim, Sejam parte do tinto…vinho,
Pra que todas as partes de mim, Sejam "trucadas", invertidas Reinventadas, torcidas e moldadas...
Não é mais minha, a palavra Ou o Dom, é um tudo e um nada, Depois de ser escrita e “fundida”
Ou "tocada" por olhos, pálpebras Ou orelhas, quer furadas, quer não. Escrevo embriagado…
Por isso digo, por isso trago No peito, na braguilha e no bucho O mosto quente, por isso, o derramo,
(Por um nada) …
Um enigma, uma visão, Uma gralha, uma fala, Que sirva pra profanar o lugar-comum,
Por isso ofereço, dou a palavra, A quem tiver por prazer Beber comigo.
Vai mais uma rodada, Bebamos as partes do corpo Duma vezada, por uma razão qualquer.
Ah…eu bebo por desdém, Também.
Joel Matos (12/2013)
http://namastibetpoems.blogspot.com


Com'um pensamento que te s'crevo...

COMUM…
Não sendo meu, o que escrevo e penso, Sinto-me escravo de sentidos d’outra gente Que não eu, embora possa ser o desespero Meu, o qu’essa gente de escreveres sentiu, Antes d’ser meu, o pensar qu’esse alguém, m’deu…
Talvez m’alumie, ou não, um comum Deus de gente, porventura contraditória…. Talvez nã’ s’importe  Ele dos pensares, (antes d’meus, Serem d’outros e d’lugar algum). Não sendo meu, o que penso e’screvo,
Coleciono ilhas no pensamento, ó invés d’covas Na praia, como fazem, tod’as crianças E uma suprema dor, sem que saiba o porquê E por’quando, Tendo a sensação, de nada ser meu, Mas, de nos ossos ter, como tant’outra gente.

(Como singular direito), a tristeza d’esta Terra toda, -com'um pensamento que te s'crevo-
Joel matos (11/2013) http://namastibetpoems.blogspot.com

Pudesse eu...

Pudesse eu, não ter laços Ou esperança, Cair no poço sem fundo, Com que sonhava em criança,
Pudesse eu, na garganta sentir, Torturante, A dor no parir, perto ou distante E o choro aflito dos qu’hão-de vir.
Pudesse eu, fazer -“O que me dá na gana”, Não morreria numa cama, Escolheria viver enterrado,
Sentindo o peso da terra, Amontoada na tumba, E os caniços, varando-me a cara nua, Numa sensação boa,
Pudesse decepar eu, os braços E salvar a dor Na alma, Não seria estranha,
A sensação tamanha de sentir, Que deveras sinto…
Joel Matos (10/2013)
http://namastibetpoems.blogspot.com

(Na cidade fantasma que é o meu pensamento)

O meu pensamento é uma cidade fantasma, Ruas suspensas, submissas ao tempo, ruínas de templos E os gemidos dentro das casas, (acaso possuíssem alma) Seriam ténues, não me prendessem tatuagens nos braços
Nas frases austeras que um esquecido astrólogo segreda Ao meu pensamento. É uma cicatriz que dói, aberta Quando se remove com a unha, pra não ficar dedada. O manto da invisibilidade é a sua cómoda coberta,
A manta de lenços e papel que absorve qual mata-borrão (Fico sem saber se é natureza murcha ou decalque da morte) E depois me atira ao acaso, nessa cidade de casas sem chão, Fixas no ar, vazias de tudo, como absurdas obras de arte.
O inesperado e talentoso verso pode nem surgir nele, Como por encanto, mas por enquanto, vai alternando Entre ouvir-me e surpreender-se a si próprio, do seu pensar Estranho. Às vezes tenho pena de quem não imagina, tendo
Eu, nas mudanças de rumo deste pensar, a visão máxima De assombro, quando dou por mim no fim, a voar sobre campos

Vivesse eu na paz dos imortais

Vivesse eu na paz dos imortais
Tivesse eu, fé nos lábios meus, quando escrevo E majestade nos dedos; resgataria o frenesi Cativo nos frutos da paixão, tornaria servo O aroma do azul motim e o esplendor da relva no jardim Tivesse eu, a fé de recheio em mim, como um ovo,
Que nem humildes nuvens me suspendem os beiços, Como posso sentir, o sentir de Deus, em “technicolor” E alterar o pão em vinho se depois, reparto pedras, teixos E amostras sem valor de poemas “multiflavor”. Antes que os medos e o receio me vençam, quero ter dedos,
Como se falassem a Deus, na fala de Prometeu. Se s’crevo, O que não diria eu, sendo dele, pra’além d’afiançar Ser sentido, apesar de não ser real, o meu canceroso acervo. Vivesse eu, na paz que os imortais assumiam como seu samsara E pudessem minhas mãos florescer, na estação do novo,
Teria eu, fé nos lábios meus, enquanto soberano E poderia ter ameias de plácidos castelos, nos rombos dedos. Vivo eu no contraditório dos normais, Sou desconhecido nesse paradeiro e meu dom, Habita …

Poema Con-Dom

No meu reino soberano, Literal e literário, Vivo danado e mundano. Apesar de não cometer adultério,
Sou moralmente insubmisso Ao casamento, como ofício Santo, casto e excelso. A minha fé é lei e um seio,
E as sedas dos soutiens, Minhas donzelas e amantes, Os mamilos…ah, os mamilos Citrôenes, dois sinetes elegantes.
No meu reino soberano, A soprano é-o, de coração E é nela que me venho, Num peculiar padrão,
Fardado de tenor solteiro, E patrão do esperma. No meu reino, sou rei Do que é ser poema
Liberal e libertário, Sou o serralho d’um pragano, Pingo de galheteiro, Delegado do engano.
O meu mundo não é Terreno, E mais dia, menos dia, mando O reino pro aterro, E demito o Dom…
Joel Matos (02/2013)

Houve tempos

Houve tempos em que os sons do celuloide valiam Mais do que simples palavras, momentos Em que as imagens saíam do ecrã do cinema E eu sabia de cor o que diziam os lábios mudos,
As mãos vacilavam, nervosas sob a luz tremula, Ansiosas pelo toque da companheira do lado, Suspendia-me na respiração solene dela, E esquecia o enredo da película que estava vendo,
Na frágil ilusão do filme, esquecíamo-nos da noite, A vida corria como se fosse uma original edição, E o que se passava na tela era tão naturalmente aceite Que orvalhava os olhos e acelerava a pulsação.
Não havia ontem ou amanhã, o tempo esvoaçava, Espantávamo-nos com a nossa timidez espontânea, As juras de amor seriam aceites? Saberiam a saliva? Ou a salva da pastilha-elástica? Sei que provocavam insónia
E repetia tantas vezes o mesmo nome até ficar exausto, Mas era como se o trouxesse, dentro de mim grudado, Mesmo depois, quando ficava sozinho no meu quarto, Recordava os momentos com ela segundo a segundo,
A despedida à porta da sala de cinema, pungen…