quarta-feira, 13 de abril de 2011

Em tempos quis o mundo inteiro






Em tempos, quis o mundo inteiro,
Hospedado no peito, redondo e obeso,
Perpétuo como um relojoeiro,
Um peito de soldado raso, desconhecido...

Era criança e havia amar,
Eternidade, justiça e razão...
E um lar... um veleiro vulgar,
E um timoneiro sem tripulação.

Hoje sou ilícito e estrangeiro,
Partido fui; metade do coração, eu entendi...
E o mundo que já cobicei como o ouro, era outro
Ficou perdido, em nenhum outro lado, fora d’mim.

Acabei por fim, a não pensar em nada,
Até que acabou o meu tempo,
Escondido numa caixa enganosa, redonda…
Num habitual descontentamento.

 Eu...a quem o mundo não bastava,
(Se nem eu, nem ele sabíamos que o outro existia)
Agora, pouco do que tenho e sinto, é seu...
Nem isto que escrevo, indefinido e a eito, sem serventia...

Basta hoje o dia não ser tão feio,
Pra ver no céu fiel a alegria que sinto ainda no peito,
Porque na terra, o que esperava não veio,
A minha alma foi sepultada num árido e seco deserto.

Joel Matos (04/2011)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

D'aquilo com quem simpatizo




Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Não é um defeito, um rito ou um mau-olhado de bruxo
Que exceda a cota de quem sou, tento gozar dum rio d'sorriso
E da simpatia dos outros, esse imesurável fluxo.

E torno sempre, mais tarde ou mais cedo,
Escorreito e escavo consoante o vaso em que me aprovem  
E à substancia mais dócil, da qual ele foi talhado.
S’ inda ontem fui greda, hoje sou margem de ninguém.

Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Transforma-me no leito de quem, leve passa e na lembrança
De que não é minha esta versão que abraço da arriba vazia,
Aborrecido de simpatia falsa faça ela o ruído que faça.

Quer Seja uma flor ou uma ideia abstracta
O que sinto no pensamento, serve de monumento
Ao que não perdura ou não existe, ao poeta isso basta
P’ra fazer sentido, apenas esse segmento de tempo,

Em que a água baça do rio por ele passa.

Joel Matos (04/2011)

quinta-feira, 31 de março de 2011

As palavras que me fitam


Nas palavras que me fitam,
Sem pudor,
Infinitamente complicadas,
Abundam meadas,

Da minha ignorância,
Deslembradas trincheiras,
Em conflito
E em guerras alheadas

Das minhas dispersas fronteiras
E nos estilhaços
Das vidas que nem vivi.
A sombra,

Ameaça-me o pensar
E a lembrança,
Das coisas belas,
Que não pensei;

Deixei-me guiar por completo,
Como folha em branco
E ao natural vento,
Nele me espreguiço

E me rendo esquecido.
Nas palavras que me fitavam,
Só sobejo no que sinto,
Morreu o que desconheço

Se tudo o que sei
É o que procuro ser,
Como se tivesse lavado delas o sentido
Num rio de pedras quinadas.

Mais límpido e nítido,
Definido como gelo frio,
Incorporado como fluido nas veias.
Confesso-me confuso

Porque quando estas me fitavam
E encandeavam
E controlavam as minhas ideias,
Só elas me faziam chorar.

(As palavras que me fitam)

Joel Matos 03/2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

ciclo fechado


Todo um ciclo foi concluído,
Apesar de nem começo nem fim conter,
Num momento pareço de consciência abonada,
Noutro mendigo no escrever o bem parecer

E recomeço onde nunca acabo, cercado, esquecendo
Que em rodo das paredes do Cárcere
É sempre ao meu fracasso que Fedo
Como ranço da carne a apodrecer,

E o que, no livro, acaba, aqui no enredo
Não, em mim sim, barbeiro de mau carácter
Morto por dentro e azedo a cada manhã que acordo,
E sedo-mas, ainda assim prefiro acordar a temer

Não encontrar a razão no outro lado,
E o pensamento claro, (mesmo a fingir)
E que as minhas palavras digam algo,
Que eu próprio saiba infimamente atingir,

Do que não acordar de todo,
E ser um fulano com’outro qualquer,
Com princípio, fim, e meio indefinido,
Meio Esquisito, meio esquecido, passado,

Portanto, dou o ciclo por terminado
A meu ver não digo nada diferente e quem me ouvir,
Será apenas d’ouvido e duvido se por’í’ando,
Ao vivo, ou a preto e branco, no sonho dum ser sequer.

Joel Matos (03/2011)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Actografia





Actografia

Creio no universo como um homem vulgar,
Não tenho filosofia que me defina,
Nem lugar em que gostasse de falecer,
Não consinto a vida, assimilo-a como a morfina,

Recolho-a nos campos e onde me deixam colher.
Acervo, incorporo tal-qual cobra, a peçonha,
Hasteio-a na haste mais fina que houver,
Enquanto flor do estio, fonte do sol, neblina,

Embora possua um instinto próprio de mulher
É o corpo e não a frágil alma destas que me fascina,
Autista no que exijo e existo sem o que conheço eu, entender,
Como se tudo fosse uma farsa da negação minha,

Disposta a tudo e ao que deus quiser, se isso doer, 
O sol-pôr é um analgésico, uma agonia Celestina,
Com ele me uno a disciplina de desaprender,
E as inocentes crenças do virar das'quina,

Verdades transitórias e de aluguer...
Porque, como disse, não faço uso da inteligência divina,
(limito-me à opinião por estabelecer)
Tenho a demência, como estranha e inexplicativa vizinha,

Profundamente hipócrita na sua naturalidade e ilusão de freelancer.
Estou cansado de ser forçado a querer,
Mas não creio no universo que me dizem existir,
Já que a máquina de mentir fui eu que a criei.

Serei realmente gente?

Joel Matos (02/2011)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Deus que acabe com tudo isto...


Deus que acabe com tudo isto! Abra as enclusas,
Anule os alçapões que censuram as águas,
Convoque os trovões da monção e induza o céu em função
Do cargo sublime,  que ocupa em toda esta questão,

Desd'que acabe com tudo isto! Com esta sensação falsa
D’infinito de quem não tem expressão na fala
Para confessar arrependimento com convicção.
(Vivemos em constelações de irracionais prenhos de solidão
Isentos de sentido crítico)

Deus que acabe com tud'isto! E esta alheia gente,
“Com um sorriso na cara que nada tem de inocente”,
Fingindo felicidade na beira do holocausto,
Sem abdicar todavia do falso título de homem casto,

Por isso escrevi um sermão vulgar, religioso, mas sem religião
Para qualquer um outro Deus, “que termine de vez a missão”,
 Que pretendia incutir a sensatez do espírito das aguas soltas,
No sentido critico destas pessoas vãs e insensatas.

Joel Matos (02/2011)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Quando eu não tinha.


Quando eu não te tinha,
Os meus momentos a sós eram passados no abismo,
Entre o nariz e a boca,
A realidade era outra coisa, menos boa, religiosa, alheia,
E o acordar me dividia,
Entre o lençol e o ir comigo sem mensurável projecto,
Cumprindo um ritual,
Sem dar por nada, sozinho e morto, ausente.

Quando eu não te tinha,
A solidão saía p’los olhos e me intimidava o desejo,
Como uma casa vazia.
A desgraça carpia a minha ausência infiltrada na sombra,
Batendo as horas.
O exílio não era nas hortas e nas nespereiras com frutos,
Os silêncios não eram sagrados
E as rotinas não saradas jamais passariam de básicas e banais.

Quando eu não te tinha,
Não sabia quem eu era, agora não sei quem sou,
Porque te tenho,
Como uma doença benigna e natural, um sopro,
Uma ideia vaga.
Convem conduzir-te p’ra longe da minha inveja,
Mas não sei como.
(Tal é a minha descrença nas teorias da humanidade)

Esperança, quando eu te via nos reflexos d’outros óculos
Era feliz, reconheço-o,
Agora estou ciente que quero o universo inteiro
D’um todo
E nem por isso sou mais brilhante ou autêntico,
Do que outra realidade qualquer.

Joel Matos (02/2011)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Nem em mim confio



Minha imaginação é um elefante,
Um bumerangue,
Uma faca afiada, de dois gumes,
Que me desapega a vida,

Um elfo e as fadas,
E os muros do palácio,
Que se dobram,
Como curvas e estradas.

Minha imaginação é um truque,
Sem chapéu d’mago,
Um castelo, num mítico bosque,
Uma miragem num tanque,

Um outro Entrudo.
Mas, se a coabitar com o meu “eu” inculto,
Mutilado e sem fantasia,
Sou forçado,

Mesmo quando o não entendo,
Deveria tomá-lo como certo,
E não como embuste,
Ou trapaça, ou farsa.

Minha imaginação
É uma almofada em branco,
De penas, remendada à pouco,
Quem me dera ter sono pesado,

E não acordar deste lado,
Outra vez comigo,
Despido e frio,
Deste lado ruim, em que nem em mim confio.

Joel Matos (02/2011)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tão íntimo como beber


Na véspera de não partir, nunca
Antes mesmo de ter pensado
No regresso, a incógnita
Do futuro sujeita-me a vontade,

D’abalar prá’s grandes extensões,
Da alma e do entendimento,
Mas, o que sinto efectivamente,
Ou está na prisão, ou anda amonte,

Ou é uma máscara, ou um pedaço d’alguém
Mas, a ilusão que m’lembro,
Só provem dos sonhos, de que s’lembra,
A consciência das flores,

Tudo o resto são lastros,
E castros e humores
Dos atalhos de quem viaja, por terra meia
E falha no destino.

Sou uma multitude de trastes,
Sou uma sombra de outra realidade,
Uma panaceia
De sentidos inúteis

E, dado que, na véspera não parti,
Como falei
E, tendo lugar reservado
No desejo absurdo

De encarnar num outro,
Os sonhos e as insónias,
Não terão morte no meu futuro,
Caminharemos de mão dada

Nos jardins d’outubro
Tendo na consciência, um cego
E no olhar distante, um louco
Que viaja numa falua sem corpo,

Querendo fugir e deixar tudo
Como estava no dia da chegada,
Sem se fingir d’arrependido,
Na volta da estrada sem vinda.

Sou tão cheio de abismos
E mistérios que não sei qual escolher
Dos terraços
E se chove eclipso-me no vaso de flores,

Nas ruas digitais
De pedras, enterrado vivo,
E as flores por coroa.
O plano era ter da jornada

A esperança, dum todo,
Como quem bebe o entendimento
Liquido, lúcido e menino.
Na véspera de partir viajo p’lo meu ser

Tão íntimo como beber
O reflexo da lua, não o meu…

Joel Matos (02/2011)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Definição de esperança


Breve, o dia em que decidi ser alguma coisa,
Espuma de mar cavado na sarração do vento.
Acordo no meio de uma conspiração d’ondas e horas
E dedico os últimos minutos a tentar definir o tempo

E lembro-me de não querer ser capitão d’coisa alguma
Sobretudo no dia de hoje que acabará d’manhã bem cedo,
Ainda me pus a olhar o futuro, sem solução à vista ou relógio d’pulso
E, na vigia baça da embarcação, abocanho um curto sonho,

Um sonho em vão, de quem espera horas e horas o fio,
Mas breve, breve como as ondas no bojo preto deste navio
Cargueiro. Vi passar o rápido, das nove e um quarto,
Branco, branco…Tinha na face, a expressão da glória antiga,

E eu aqui no porão, como um rato num ínfimo labirinto,
Hostil e angustiado sob o peso da máquina universal do atraso.
Ah, se eu estivesse atrasado dezoito horas na vida,
Começava tudo outra vez, à meia-noite e vinte em ponto

E seria mais um livro, posto na prateleira, sem paciência
Pra ser lido, contudo, sinto-me vivo como um nado-morto,
Embalado pelo dever de viver, ao lado de cada dia, de cada segundo,
Sem força para detestar tudo o que me é imposto,

Pela absurda tripulação de estibordo.
Ah, se eu tivesse ambição, provocaria um motim de praças
E partiria de malas feitas, por esse mundo sem fim,
Decerto seria alguma coisa, com mais sabor que não engodo

De peixe balão, batata de sofá, asceta gordo de time-sharing
Ou marajá da sanita. Descubro que sou, metade, tempo perdido,
Metade, escrita ilúcita e imaginação no intervalo, mudo de cor,
Ao estilo de camaleão do campo… sem título.

Breve, o dia em que decidi ser, coisa alguma,
Um zero, num fim metafórico de cena, uma réplica de sino,
Uma causa pequena, onde o vento, faz tempo não sopra
E dedico os últimos minutos, A TENTAR DEFINIR A ESPERANÇA.

Joel Matos
(01/2011)

Pra lá do crepúsculo

Pra lá do crepúsculo Deixei de ser aquele que esperava, Pra ser outro’quele que s’perando Em espera se converteu, alternando Despojo com eng...