sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Doze







Doze

-Doze nós, tem uma figueira
Ao medir-se dentro de nós, em vidas
Que a gente tem e não sabe explicar,
-Doze é a distância do braço ao pego,
Iguais de uma à última cadeira,
De ponta a ponta da imensa mesa.
-Doze, os carvalhos de uma clareira,
Todos leais, à sua maneira monarcas
(Todos iguais, Todos Deuses)
Prodígios nós, os meses den’par
E a esperança dela voltar, a paz 
As doze badaladas, a melodia,
-Dentro de nós, temos uma figueira,
Ramo a ramo, cada um mais alto,
Aí eu me deito e penso,
Quão doce o horizonte é, ouso
Ouvir o seu falar e o que há-de
Dizer-me, puder eu contar-lhe,
Senão ao colo desta figueira grande…
Grande.


Joel Matos (07/2017)
http://joel-matos.blogspot.com

O Transhumante Ou "Versus de Montanya Mayor"




GR 11 (2009/2012)
O Transhumante
Ou “Versus de Montanya Mayor”
Sud-express , embalado , em lençol deslavado,o Transhumante adormece
rapidamente . Nos beliches próximos Hamid, gordo e seboso que dizia em mau Inglês
ter como destino o Cairo , e um estranho sujeito, de olhar magro , detrás dos
óculos redondos ,com poucas palavras em que dizia vir do Alaska .
Na escuridão do compartimento apenas o foco de luz da lanterna frontal lhe permite escrever, seria A sua Luz, sua companheira nos momentos negros , pelo Pirenéu “nos versos de Montanya mayor”.
Na Primeira noite , ficou em plena floresta, em Elizondo, no bosque furioso ,onde o vento o fustigou uivando como um lobo toda uma noite sobre aquele pequeno e frágil refúgio , azul e negro (o bivac) da cor da potente tempestade.
Virando-se para trás, fitou na manhã seguinte, um esquiço de Pirinéu que não
esqueceria jamais, tinha-se perdido e desistido nesse mesmo local, em idos de Junho , doutro
tempo, por defronte, bem alto, enfrenta um rasgo de Pirinéu mais tosco, tentará desafia-lo e rasgar o medo de ser solitário.
Seguidamente e Já em Urvallo ,numa pequena e típica cabana de caça, Pako e família ,partilharam com ele uma generosa refeição inundada a vinho que o reabilita e insta ,os quilómetros seguintes foram divertidos e relaxados,instalou-se nele a confiança,
Até encontrar um holandês , que o considerou louco , por cantar em voz alta ;
Mas…quem se poderia considerar são, naquelas intermináveis danças, com árvores e
pedras. Pensou em Saramago , no “Memorial do Convento “,”completamente louco , varrido, numa terra , varrida de loucura.”
Veio então Burgette,outra pequena aldeia de montanha ,mais alguns km.de
pista e encontra finalmente os primeiros peregrinos de Santiago, inconfundíveis
, no aspecto medievo; poncho, cabelos compridos, chapéus de cabedal e
também de emoções diferentes , ainda não partilhadas por ele , homem pouco dado
a epifanias, pelo menos até aquele momento.
Chove constantemente, mas mãos bem assentes , em cumprimentos efusivos dos peregrinos sobre os seus ombros como que o protegem .
O trilho, apesar de difícil,fluía perante os seus olhos, sob os pés demasiado cansados,rumo a mais um colo de outras florestas.
Um belo arco-íris em Mendilaz,outra aldeia , nada fazia prever , perante aquela imagem , o tsunami que essa noite iria cair, felizmente o “fronton”,(recinto de pelota basca)
coberto , evitou males maiores, conseguiu dormir seco.
Enfim , Ochagavia e Isaba ,e depois da tempestade a bonança , fresca , com cheiros benignos e resinosos ,acompanhou-o , na respiração rápida e ofegante de caminhante feliz , Col de Somport e Candanchú aproximavam-se depressa,Venceu-se horizontes
e espanta-se que , as novas vistas , sejam diferentes , apesar de iguais , e
assim progride , diariamente , tentando ver o que está por detrás do monte,por
detrás dos novos e iguais horizonte.
Os grandes estradões gastos, antes de começarem os caminhos empinados, permitem-lhe escrever enquanto caminha rápido ,o tempo , demasiado calmo, anuncia a nova tempestade, nas tardes certas ,sempre em tempo certo.
Imensos esquilos fugindo, alguns veados e cavalos , quase o empurram, o céu tinge-se de negro, rugindo forte , ao som das trovoadas.
“Valle do Ecco” …escrito no mapa molhado , um Vale, onde nem os próprios pensamentos consegue ouvir.
Encontra Ascencion e Angel,foram companheiros por algumas horas e repartem com ele batatas cozidas,acompanham-no poucos kilometros , mas logo ficam para
trás .
Apenar os nomes destes,Angel e Ascencion , não se enquadram com o local onde os encontrou,Valle do Erro (vale dos Cavalo),seria engano ,estaria errado de novo? (como em 2007) Desacertado encontro com Anjos,mais tarde haveria de pensar nesse acontecimento. De novo alcança protecção, na escuridão de Isaba .
Terceira noite adormece apesar de fortes dores num pé torcido de quando caiu de uma
ravina sobre um colchão de folhas podres , foi a mochila que felizmente amparou a
queda.
Depois disso viu (ou pensou ver) o que pareceu “O S. Miguel,” na porta
do mosteiro do século doze,como uma miragem , mas foi só ele que o conseguiu ver em doze séculos , foi um sopro de esperança , na realização da difícil etapa e e no finalizar do percurso. Coxeando muito, arrastava o corpo cansado em direcção de Zuriza e Aguas Tuertas , depois e porventura acabaria chegando a Candanchú ,coll du Somport, quase doze horas de marcha tarefa árdua , mas pensava conseguir chegar, estava bastante animado.
Acordou ainda era noite fechada,tinha de esticar o passo em direcção ao desfecho, iria percorrer um terreno muito mais difícil de montanha, com trilhos pouco definidos e sem mapa, já que, quando partiu de Irun,(local da foto acima) , não pensava chegar
tão longe ,a neve , fora de época e pendurada nos picos de Penha Forca ,incomodava-o, teria de atravessar,com ténis , uma zona de progressão mais técnica e difícil.
Encontra então o derradeiro Miguel,quem sabe, talvez o S. Miguel da porta da Igreja do século doze (,aquela figura dúbia que apenas a ele ,doze séculos depois do carpinteiro a talhar lhe parecia mostrar o S.Miguel estilizado na porta de madeira velha)
Miguel nunca tinha pisado a Montanha tão seriamente , condutor de autocarro, resolveu uma semana antes atravessar esta rota ,assim e sem mais , nem menos… .
mas foi Graças ao apoio mútuo que chegaram
ao coll du Somport,Candanchú.
Miguel continuará ainda caminhando, entre os caminhos dos peregrinos e outros,
nos “Versus da Montanya mayor” em busca de outros viajantes solitários em perigo.
Ele ,”O Transhumante” ,regressará de novo em outros dias de outros Junhos , noutro tempo ( por sinal este ano de 2010 a 6 de Junho),na tentativa de chegar a Andorra ,até ao Mediterrâneo em 2011 ou 2012, e mais além….Talvez, (porque não Istambul ?)
Jorge Santos/Transhumante
05/2010
O Silêncio do Nada
2ª etapa (Coast to Coast) Atlântico /Mediterrâneo
3 dias (Canfran/Viadós)
O dia estava morno e ventoso enquanto calcorreava as escadinhas de Alfama, ao fim do dia despediu-se da companheira o do filho no Museu da água e um táxi levou-o ao aeroporto, opção que se revelaria incómoda, apesar da rapidez deste meio de transporte em relação ao autocarro habitual (Lisboa /Madrid costumava demorar cerca de 9 horas).
Estava animado pelo sucesso do ano anterior, tinha percorrido 250 km em quatro dias e meio, ainda não tinha recuperado completamente do pé torcido (talvez nunca recuperasse), mas nada o detinha na tentativa de atravessar do Atlântico ao Mediterrâneo, desta vez começaria em Canfran, perto de Candanchú, (coll du Somport) onde tinha finalizado em 2009,Canfrac era uma linda estação de caminho de ferro, monumento de outras épocas mas tristemente abandonada junto á fronteira com a França, esperava ainda os comboios que não mais chegariam, por estúpidos motivos políticos.
Eram 13:27, hora de almoçar e lançar-se montanha dentro apesar da chuva forte e da neve em quantidades recordes nas portelas e cumes, percorreria 18 km até ao anoitecer em Salent Galego
Ao chegar a Fuerte Col de ladrones, uma pequena fortificação de portagem medieval, já está encharcado até aos ossos e tremendo de frio, sob a pouca roupa que tinha consigo, afinal era verão e tinha de carregar o mínimo de peso para conseguir alguma velocidade num terreno tão inclinado como era aquele com passagens pelos 2.500 metros e desníveis consideráveis.
O xisto cinzento parecia fazer crescer um céu tormentoso quando chegou a Formigal, uma Dantesca estancia de ski, teve de apressar-se ao sentir os típicos sinais de resfriado provocados pela neve e gelo e o esgotamento dos cerca de 20 km feitos numa única tarde, quando chega finalmente a Salent Galego entra na primeira porta e nem negoceia o preço da noite, tinha pressa de secar e dormir, a última noitada tinha-se passado esperando transporte no terminal rodoviário de Zaragoza, dando voltas à enorme estação para conseguir manter-se acordado, sabia que o perímetro demorava uma hora a completar, em passos lentos e foi assim contando as horas de uma noite difícil, mas era preferível a acordar sem nada como já tinha acontecido fazia tempo
De manhã acordou as 7 horas, mas sai do hotel as 8 horas em ponto, com céu limpo espelhando-se na barragem de Sallent a caminho de Panticosa mas fê-lo pelo caminho fácil, tinha-se informado previamente da viabilidade de outro caminho mas a neve continuava intransponível, além disso este estradão ia directo até ao balneário de Panticosa, outra aberração Pirenaica, uma estação Termal cinco estrelas inaugurada e logo abandonada, este atalho permitia-lhe aumentar substancialmente a velocidade média do percurso por ser feito numa estrada e não num caminho sinuoso e difícil como a maior parte do percurso.
Olha para o relógio, eram 11 horas e estava já em Panticosa, percorrera 20 km em 3 horas e esteve animado nos restantes 17 km até Bujaruelo onde chegou pelas 5 horas da tarde,a tempo da primeira refeição do dia e recuperar fôlego para os próximos 18 km até ao Parque natural de Ordesa (Cabana Suaso).
Pela primeira vez encontra uma alma viva no trilho, assusta-o o rastilhar do mato, era um corredor de longa distancia que aparece repentinamente, ia na mesma direcção e mais tarde protagonizaria com ele o abandono do GR depois de se perderem juntos em Goriz.
Foi um dia longo, percorreu 56 km, já tinha anoitecido quando se aconchega frio e molhado na Cabana Suaso cheia de centenas senão milhares de inofensivos ratos, no Parque Natural de Ordesa e Monte perdido, o pé voltou a resvalar numa pedra e foi dolorosamente que se arrastou a ultima centena de metros e de novo sob chuva forte, a chuva constante de todas as tardes Pirenaicas.
Mas renova-se de energias no terceiro dia pela excelente paisagem de canyons e florestas densas da zona, Goriz e Anisclo eram agora as metas e seria talvez no Refúgio de Pineta ou a aldeia de Parzan sua próxima meta,ainda não sabia ele que chegaria a Parzan sim, mas no carro de apoio do John ,o incontornável corredor de montanha.
O trilho escondeu-se sob a erva muito alto, (de novo devido à meteorologia extrema do ultimo inverno) as confortáveis marcas brancas e vermelhas desapareceram, esperando por ele mais à frente estava John, o referido colega de percurso que lhe fazia lembrar uma lebre sendo ele a tartaruga, o outro corria, e ele, com algum peso às costas (além da idade, que começava a pesar também, apesar de Transhumante) tentava deslocar-se o mais rápido que podia.
Foram horas que passaram na busca do trilho e de “Fuen Blanca”um manancial que indicaria ser por ali o trilho que desceria pela vertente, não podiam inventar, só aquele trilho os levaria ao vale e ascenderia depois ao colado Anisclo, uma das subidas mais íngremes de toda a viagem.
Foi decepcionado que o Transhumante desiste do projecto pelo qual esperou um ano , saíndo do percurso, alcançá-lo de novo implicava um dia de marcha e as condições anímicas não eram as melhores nessa altura para lhe permitirem retomar o caminho.
Baixa para a aldeia de Nerin onde felizmente o aguarda John e o transporte que o coloca de novo na continuação da marcha, desta vez mais á frente, na pequena aldeia de Parzan, a poucos quilómetros do túnel de Bielsa, pensa que talvez assim consiga chegar a Benasques , abandonada de vez a vontade de alcançar Andorra. O aneto, próximo de Benasques marcava a metade do percurso Gr11, costa a costa e seria suficiente nesse ano ,regressaria mais tarde onde se tinha perdido para averiguar melhor, por agora estava conformado e cansado,terminou o dia com uma derrota de portugal face a Espanha no Mundial da África do Sul de 2010 e jantando na única taberna da Localidade, servido por uma imigrante do Brasil, ironias do destino.
Tem 40 km para percorrer, o pé inchado dificulta-lhe a marcha, de novo Jonh passa a correr e despedem-se:-até Benasques, Pensam encontra-se novamente no final mas não conseguiria lá chegar, ao meio da tarde e feitos apenas 20 km, desiste na cabana “refúgio de de Viadós”, consegue boleia na aldeia de Plan, haveria de voltar de novo no ano seguinte, esperava ele , e com melhores condições atmosféricas, talvez com menos neve nos cumes e menos chuva nas tardes curtas.
Recorda-se do ano anterior(2009) e do Miguel ,o S. Miguel do convento do século xII ? ou simplesmente um condutor de autocarro, este ano tinha comparecido diante dele um Deus alado, O Mercúrio determinado e com asas nos pés ,qual seria no ano seguinte o personagem que o acompanharia, tinha curiosidade em saber e doze meses para melhorar do entorse ,talvez não fosse má ideia usar botas na próxima vez, em lugar dos usados ténis , apesar destas lhe diminuírem consideravelmente a velocidade.
Em Ainsa ,depois de Plan ,apanha uma outra boleia boleia (fazia-o recuar aos tempos em que viajava de boleia pela Europa) desta vez deixa-o na estação de autocarros na cidade de Barbastro, com destino a Saragoça , Madrid e Lisboa, soube-lhe a pouco os três dias e meio no silencio do nada (120 km) e depois aquela interminável viagem de autocarro de 900 km, mas sabe que regressará no ano seguinte…
Por agora resta-lhe voltar A Burgos para finalizar de bicicleta o “caminho de Santiago” até Finisterra, 600 km de trilho e ele ainda pode pedalar,o movimento dos pedais não o incomoda demasiado,como treino tentará fazer a estrada mais longa do país ,a N2,com 900 km de Faro a Chaves ou ao Cantábrico,tão distante para alguns mas tão perto para ele, pensa no seu amigo Idílio,( http://bacalhaudebicicletacomtodos.blogspot.com ) a pedalar do pólo Norte ao pólo sul e como gostaria de o acompanhar ou talvez não,está tão habituado a estar só que encara como natural esse estado,esse silencio…esse nada…
Junho de 2010
Transhumante Parte 3 (Diário de um Louco)
Os primeiros orvalhos do Outono já se faziam sentir nas planícies madrugadas de Espanha e vestiam-se de ruivo nas espigas e nas vistas da janela do comboio/Hotel Lusitânia. O Transhumante despertava de uma noite mal dormida em solavancos e guinadas para mais uma etapa nos Pirenéus, depois de chegar a Madrid ainda teria de percorrer outras estações e outros comboios mais modernos e rápidos que o levariam até onde tinha terminado no ano anterior, em Ainsa, S. Joan de Plan/Biadós.
Um táxi colectivo despejou-o já noite, no fim da estrada de alcatrão que tão bem conhecera no ano anterior (2010), sabia a distancia que iria percorrer a pé até ao refúgio, (cerca de vinte quilómetros) mas não, se estaria aberto dada a proximidade do inverno e, para aumentar a incerteza não tinha comida para essa noite nem para se lançar nos caminhos costa a costa do GR 11.
Ainda ponderava na lucidez do seu estado mental e no que o levava a fazer este disparate de atravessar os Pirenéus do Atlântico ao Mediterrâneo quando as luzes de um veículo-tod’o-terreno iluminam a estrada, iam na mesma direcção e tinham uma valiosa informação – O refúgio estava aberto -já tinha transporte e também onde “senar” e dormir nessa noite, começara bem esta aventura de loucos.
Acordou “com as galinhas”, mal se avistava já os caminhos ténues da montanha mas felizmente o bom tempo presenteava ainda um doce fim de Setembro que mais parecia primavera e nas pernas do Trashumante, as primeiras horas decorreram gloriosas, corria como um louco, esquecera tudo quanto deixara para traz, respirava o silencio do nada numa terra inundada de loucura.
Recordava as manhãs longínquas de quando iniciou dois anos antes em Irun esta rota e lhe parecia estar tão distante do final, no Mediterrâneo em Cap de Creus, mas afinal já tinha feito metade, estava agora percorrendo a parte média ou central, mas também a zona mais alta da cordilheira Pirenaica, onde as tempestades poderiam ser mais perigosas e as etapas mais dolorosas com desníveis consideráveis(entre os 900 e os 2.700 metros).
Conhecia grande parte destes lagos de montanha e parques naturais paradisíacos, melhor que o resto da cordilheira, mas durante todos os anos que deambulou por aqui, nunca imaginara que pudesse passar um dia correndo de Norte a Sul ainda menos como lobo ou urso solitário, quase sem roupa para mudar, sem comida para as jornadas nem apoio logístico ou mesmo transporte próprio para fazer, depois de terminadas as jornadas, os 1.100 km que separavam a montanha, do conforto da casa e da família, da normalidade.
Era uma rematada loucura estar correndo os 800 km da rota Pirenaica não sendo um habitante local, habituado e melhor conhecedor da região, para estes bastavam oito dias, como lhe disseram ser o “record” da travessia, mesmo assim estava determinado a usar apenas 12 /13 dias, talvez poucos o conseguissem.
Na porta do refúgio de Estós, num papel escrito a pressa, dizia que o guarda voltaria próximo do meio-dia e meia hora, tentaria almoçar mais tarde, apesar do estômago já o avisar, esperava não perder o trilho ou perderia também a refeição do dia.
Quando descia o interminável valle de Estos interrogou uma família de camponeses locais que se encontravam colhendo “setas” (cogumelos), perguntou se estaria na direcção certa para Andorra e mais uma vez ficou desassossegado perante a resposta, segundo eles estaria completamente fora de rota e era uma loucura aventurar-se assim em distancias tão absurdas e sem saber onde estava nem por onde ir, diziam eles que Gr 11 eram todos os GR’S, pois todos tinham o mesmo nome GR 11.1,GR 11.2 etc.
Revelou-se mais uma vez ser desnecessário pedir informações a quem não entendesse as razões de outros para quebrar as próprias peias mentais.
A meio da tarde um oportuno “camping” ainda aberto nesta época, junto da estrada principal que conduz a França pelo túnel de Bielsa, proporciona-lhe a tão desejada refeição com cerveja para pacificar a sede, já se faziam notar no céu as nuvens negras da trovoada que aí vinha.
Um estradão largo e monótono condu-lo durante toda a tarde a uma portela que tardava em chegar até que, pelas 17 horas encontra duas jovens moças, Ivone e Elena a porta de um refúgio não guardado, acompanham-no e ajudam-se mutuamente a superar o medo da tempestade e dos sonhos em que um urso dourado, o devora devagar até de madrugada.
Tal como noutra etapa em que Miguel, o S. Miguel “da porta do convento”, foi um considerável apoio depois de um pé torcido, aqui Ivone e Elena, tiveram também um efeito reconfortante perante uma noite feita dia com os “flashes” de tantos e tantos relâmpagos apenas com um mero segundo entre a luz e o som, nos intervalos via aparecer perfilados “hobbits“ ,”brujas” e outras personagens surreais.
O dia seguinte ainda seria mais alucinante que a noite, o ar estava límpido como sempre fica na bonança depois da alguma tempestade e a correria pelo monte abaixo embriagava-o, o vento fustigava-o no rosto transpirado e continuava a correr indiferentes as dores nos joelhos, as bolhas nos pés, ao cansaço de todos os músculos, alguns até que nem ele sonhava existirem.
A meteorologia adiantava neve para os próximos dias em cotas acima de 2.500 metros e ele tinha de ser rápido pois apenas teria o dia seguinte para chegar o mais próximo possível de Andorra.
Tentou alcançar o refúgio de Colomers, já seu conhecido mas em vão, ao chegar a “Restanca”, de novo os guardas do refúgio o tentam convencer do perigo grande que é continuar, de noite e sob a tão terrível tempestade regressada novamente durante a tarde e num caminho mal balizado nessa zona. Ele convence-se a deixa-se ficar perante uma promessa de jantar, cama seca e do primeiro banho em muitos dias.
Mais uma vez acorda com pesadelos, noite cerrada, para tentar fazer render o último dia antes do nevão, das pistas de montanha ficarem tapadas pela neve. Surpreende-se da forma física que tem aumentado desde que chegou e da vontade anímica de correr por entre os caminhos tortos dentro do parque de Saint-Maurici/Encantats.
Chega a Espot ainda cedo, resolvido a não continuar mais além, o céu prometia neve mas sentia a sensação “Dulce” de dever cumprido. Andorra era já ali ao virar, no total das 3 etapas tinha percorrido 2/3 dos 840 km que separavam o Atlântico do Mediterrâneo pelo trilho do Gr 11, recomeçaria no próximo ano por Esterri D’Aneu, agora já por Barcelona/Manresa, mas de avião, a viagem de 24 horas comboio/autocarro para superar os 1.100 km entre casa e o objectivo era mais cansativa que a travessia da montanha grande.
Tinha um sonho por realizar entretanto, pedalar 13.000 km de Xi’na a Istambul por entre etapas e alucinações, desertos e visões de outros mundos mais ou menos paralelos.
http://joel-matos.blogspot.com
Jorge Santos (09/2011)
Fantasmas e javalis ou um poema de longo curso
Dormira acarinhado pela noite amena, ali próximo, a poucos quilómetros de Andorra, agora era acordado pelos grunhidos dos Javalis, o Transhumante assustou-se ainda um pouco mas não demorou muito a lembrar-se onde estava; voltara ao GR 11 para tentar terminar o que começara quatro anos antes, no ano de 2009, em Irun .
Dava agora mais valor que há anos atrás às pequenas ocorrências diárias, talvez a falta de acontecimentos o fizesse valorizar mais os sons os cheiros ou os encontros casuais com os escassos caminhantes ou montanhistas.
Actualmente encontrava-se no Vale de Madriu, muito perto de Andorra e à sua volta os javalis esforçavam-se por manter o terreno chafurdado como era seu hábito.
Demorara cerca de cinco horas desde a partida de Lisboa em avião, fez escala em Barcelona na manhã quente de sábado,15 de Setembro de 2012 e ainda fazia calor apesar de cair a tarde, estava um calor abafado e sem vento quando chegou a Andorra de Autocarro, tempo apenas de comer no primeiro bar de comida rápida, ainda tentou recomeçar onde tinha finalizado em 2011,em La Guingueta D’Aneu, mas em vão, o próximo bus apenas seria na segunda-feira, dois dias depois.
As grandes cidades não lhe despertavam muito interesse, mesmo aquela magnífica “Babel” com as torres de Gaudi.
Lembrava-se bem do vale de Madriu, isso sim, já tinha passado por aqui com um amigo o J.J. Portela há bastantes anos atrás, mas ainda se recordava d’alguns pormenores do percurso, onde tinha tirado uma ou outra fotografia, dos lugares e fontes onde bebera uma boa água, cristalina como diamante, lagoas de azul-turquesa, lembrava-se todavia das montanhas que não mudam muito, mudam-nos a nós…e muito essencialmente por de dentro.
Uns grupos de escaladores Catalões (pareciam escaladores pelo aspecto) na cabana “dels esparvers” recomendam-lhe de uma forma pouco simpática que procure outro refúgio pois aquele encontra-se lotado, a resposta foi igualmente fria e este disse-lhes que não precisava de tecto para dormir, qualquer recanto da floresta seria a sua casa nos próximos dias.
Perguntaram-lhe o que estava fazendo ao que o Transhumante respondeu que tencionava acabar o GR 11 em quinze dias; a resposta foram gargalhadas, pois que isso não era possível já que o ídolo da Catalunha e quiçá mundial e amigo pessoal destes, Kilian Jornet o havia feito em sete dias e os quinze, seria até mesmo assim impensável, até para um fantasma e os Pirenéus estavam pejados deles…de fantamas e intrujões.
Ficaram mais aliviados quando lhes disse que todos estes Quilómetros, os estava fazendo mas em suaves etapas anuais.
Era noite quando alcança finalmente o refugi Engorg’s e acende uma fogueira, cerra a porta e deixa-se adormecer pela segunda noite na montanha alta.
Mais uma manhã magnífica fá-lo lembrar que o tempo estável em montanha não pode durar muito, sabe que em breve terá borrasca e ele está demasiado exposto aos elementos e sem qualquer apoio para menosprezar a segurança.
Pernoita seguidamente no enorme mosteiro do vale de Núria,chega muito tarde e cansado ao meio de muitos turistas que o miram, tinham subido no trem de cremalheira desde Queralbs, estavam limpos e perfumados ao contrário dele, mas o banho merecido limpa-lhe a alma e é um novo Transhumante que se faz ao caminho na manhã seguinte por um caminho denominado “via dos engenheiros” onde o perigo espreita bem lá no fundo da falésia, tinha de não olhar para baixo.
Nesse dia um sol admirável e uma madrugada mansa, limpam-lhe a mente e o caminho até Malnu (onde viveu Kilian Jonet) alcança Puigcerdá mas não consegue chegar até planoles nesse dia, planeava dormir num camping aí existente mas de novo encontra lugar entre os seus amigos javalis no Bivoac “azul – cor-de-tempestade” mas numa benévola floresta de pinheiros e acácias recordava-se do trajecto de outros anos e das tempestades nesta serrania que podem assustar o mais arrojado dos homens e mesmo os Transhumantes não estão a salvo dos fantasmas do medo.
No dia seguinte, entre Dorria e Planoles mais um encontro, desta vez com um caminhante sobrecarregado, pergunta-lhe o Transhumante da razão de ir tão pesado; a resposta foi imprevista, disse-lhe que iria passar muitos meses na montanha fazendo o percurso inverso dele, começara em Cap-de-Creus e iria terminar não em Irun mas noutro lugar da península Ibérica , talvez Finisterra ,ou Núxia através do Caminho de Santiago francês ou mesmo Lisboa ou Faro, perguntou ao Transhumante qual a sua opinião sobre o melhor percurso, este disse-lhe que pelas Astúrias, o chamado “Camiño del Norte”, seria uma melhor opção pela a beleza da paisagem embora de inverno fosse de muito difícil progressão devido à neve e nevoeiros intensos.
Depois de Almoçar bem em Planoles num bom restaurante ( o referido camping estava fechando)ainda consegue alcançar Núria no fim de dia, corre atrás do sol que teima em esconder-se por detrás dele e projecta uma sombra de onde não consegue sair por mais que corra, e que suba naquele horizonte árido e maravilhoso, estava junto ao ponto mais alto da catalunha “o Puigmal” ,o ponto mais elevado do, possível mente mais jovem país do mundo,”A Catalónia” ou Catalunha. Para os “amigos”.
Distingue-se ao longe uma primeira grande massa escura de nuvens, como que atraídas por ele, espectros negros que o perseguem vindos de outras épocas de guerras civis, Hemigway’s e contrabandistas.
Para o trasnhumante, assim como para os fantasmas não havia fronteiras nem parerdes, a vida fluía e era como um poema de longos discursos com ele mesmo…e com os emboçados fantasmas.
Ao fim da manhã estava em Setcases com os sinais de tempestade mais próximos, mais tarde resolve sentar-se com os velhos e velhas na taberna da aldeia, conversam sobre rituais antigos e praticas de transumância há muito abandonadas mas que não esquecem pela liberdade que usufruíam na montanha.
Dizem – lhe também ser muito perigoso continuar naquelas condições, contam-lhe do ultimo inverno em que morreram de frio num mesmo local onze alpinistas no mesmo percurso que ele iria iniciar, ainda tenta durante a tarde continuar, mas regressa à cavaqueira de café a as historias da transumância até cair de cansaço numa cama de “hostal” no virar da esquina
Foi calorosa a separação, com os velhos transumantes que de manhã cedo estavam pousados no mesmo sítio no mesmo sonho e começa, já em passo de corrida o que até aí tinha feito em passo rápido, confiava mais no pé direito que tinha torcido um ano antes e muitas vezes torcia com dores terríveis mesmo enquanto corria ou andava simplesmente a pé, depressa chega a aldeia de molló.
Depois foi Beget com uma linda igreja Românica e Albanyá foi o próximo ponto de passagem com Sant Aniol d’aguja no centro de uma vegetação tropical e uma humidade de cem por cento, de perder o fõlego, mas recupera-o depressa a poucos quilómetros de Albanyá, na vertiginosa descida duma interminável estrada de cimento, é quando vê pela primeira vez o Mediterrâneo, pondera ainda se não terá chegado a hora de terminar aquele sofrimento físico, segredam-lhe de manso no ouvido para continuar mas ele inutilmente mira sobre o ombro tentando ver sombra ou espectro mas nada, apenas a floresta, agora bem mais seca e amarelada pelo inicio de Outono.
Almoçou na casa de um camponês que escrevera na porta em letras toscas “servimos bebidas e refeições”,
Regara bastante bem a “botifarra,” o feijão branco e a salsa com um bom vinho caseiro, sentia-se tonto quando passou por ele,pouco depois um casal de ciclistas (faziam o percurso contrário tentando chegar a Irun num percurso por vezes paralelo quando não o mesmo, mas mais propício para bicicletas de todo o terreno ) perguntam-lhe se estava bem , sim; respondeu :
-estava melhor que nunca e continuou sorrindo de satisfação enquanto se afastava cambaleando em direcção ao “mar-do-outro-lado”.
Era tarde de quinta-feira e o voo de regresso seria no domingo seguinte, bem cedo; havia que fazer concessões e em boa hora o pensou porque uma boleia para Lançá o deixa mais confortavelmente próximo de Cap-de-creus e do destino, do ponto de encontro com os ancestrais que o perseguiam desde Irun, desde que começou caminhando no mar-de-cima.
Compreende agora por que razão este foi o ponto de encontro escolhido, a paisagem é torcida e retorcida, esburacada até, pelos ventos e marés, criando uma súbita catarse de estilos e sentidos que não tem igual no mundo,
Lembrou-se de uma frase de Platão, “só os mortos conhecem o fim do mundo” e aqui parecia-lhe o mundo do fim do mundo e perguntou-se: -“se não estaria morto”.
Em Port-de-La-Selva conheceu um simpático casal que o acompanhou, falavam demais e interromperam as conversas que vinha fazendo consigo mesmo, ao longo do caminho todo desde Irun,
Sentia-se incomodado mas deixou correr os acontecimentos, afinal era assim que decidira viver, como Trashumante, ao sabor do ar e das torrentes do tempo, domando criaturas e paisagens. Umas mais rústicas e pacatas e outras mais céleres e aladas como aves gritantes.
Foi um individuo aliviado que chegou finalmente a Creus e a Cadaqués a povoação escolhida por Dali, Picasso, Gaudi e muitos outros para tertúlias sazonais.
Sentia pouco profundo, o apenas ter feito um trilho comprido, nada mais, apenas um comprido e inestético poema sem métrica.
Os fantasmas não compareceram ao encontro, ficaram pelos montes com medo da “tramutana” (vento norte desta latitude que afasta as tempestades vindas do Pirinéu Catalão) esperava senti-los mais próximos da pele noutro continente, em Xi’an, quando iniciasse a rota da seda em bicicleta ou talvez nas tempestades de areia do deserto do taklamakan, que costumam soterrar estradas, caminhos e viajantes oportunistas.
Provavelmente o Transhumante ficaria nos Pirenéus e regressaria de novo a Irun ou Hendaye pelo mesmo trilho mas agora a sós, não me agradava a ideia de voltar a percorrer com ele outra e outra vez o mesmo cenário os mesmos calhaus e precipícios e os mesmos sonhos extintos.
Prestou ali mesmo, no farol do cabo de Creus, homenagem aos homens que conduziam o gado dos pontos mais altos dos Pirenéus no inverno até as planícies da erva, “os Transumantes “, A transumância foi uma prática há muito finda, para dar lugar a uma mera indústria turística que flagela as encostas desta soberba serrania com um excesso de pistas de esqui e uma paisagem lunar de dar medo até a um Transhumante, como tinha orgulho em se considerar …( EU TE SAÚDO TRANSUMANTE )
Jorge Santos
(Setembro 2012)

Joel Matos

De veneno está meu corpo imune





De veneno está meu corpo imune,
De bagaço quero aquele que arde,
De poesia quero a que me incomoda,
Dos loucos os que me enfrentam
E empurram pro poço sem fundo
Com a corda à garganta, a mesma
Que uso pra me sentir livre o resto
Do tempo e dizer o que me dá-na
-Gana, como que parindo da alma uma coruja, 
Como quem rasga e dana o pescoço,
Na suja e maldita corda que não afrouxa,
Nem dá sinal de partir a alta figueira.
De veneno está o meu corpo imune,
O pecado é perder o céu, suponho,
Não o procuro, do veneno quero o mais puro,
Pra beber entre os bruxos de olhos negros,
Com a corda na garganta e nas mãos, 
O rosto curvo, cego …
Da peçonha será meu corpo impune, 
De bagaço quero aquele que arde,
De poesia quero a que me incomoda,
Dos loucos os que me enfrentam
E empurram pro poço sem fundo
Com a corda à garganta, a mesma
Que uso pra me sentir livre o resto
Do tempo e dizer o que me dá-na
-Gana, como que parindo da alma cuja 
Como quem rasga e dana o pescoço
Na suja e maldita corda que não afrouxa
Nem dá sinal de partir a figueira alta. 
De veneno está meu corpo imune 
Pensamento e acção são ânsia e dor,
Para mim quando fico gelado do sentir
Para baixo sem conciliação ou paz,
De peçonha será meu corpo imune, 
Mas jamais do castigo que carrego
E me faz cantar com ruído e sem
Sossego e corrói tal o ácido clórico
Ou o hálito do medo …



Joel Matos (07/2017)
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Contudo vale a pena …






Contudo vale a pena
Haver amanhã, haver outro dia,
Contudo vale a pena, espécie de
Continuação de mim, perdão dos 
Céus, amnistia, caminho de quem
Se perdeu dum outro dia, eu.
Haver amanhã, haver outro dia,
Contudo vale a pena ser feliz
Enquanto ouço em mim dentro,
O pensar suposto ou intuição,
Instinto, combinação de ambos,
Consciência e sonho, vazio
Que faz lembrar ruído e se sente,
Contudo vale a pena quando
Tudo parece estar aquém do que é
E existe, continuação de mim, incenso,
Espécie de música que flutua,
Interlúdio, às vezes balada do terço,
Igreja vazia, contudo vale a pena
Ser hoje, admirável tanto quanto
Um Audi ou um quadro apresentando
Nada em continuação de mim,
Contudo valeu a pena, tudo quanto
Fui e fiz…




Joel Matos (07/2017)
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Pelo sonho vamos






Pelo sonho vamos
Pelo sonho vamos,
Tal é ter alma, não
Cá dentro, adiante
De mim e segui-la
Sem ela e eu saber,
Pelo sonho vamos,
Se não voltarmos
O rosto ao que foi
-Partiu, me deixou,
Não adianta seguir
O que a alma não
Sente ou não sou
Eu desse mundo,
-Passou, sonhar é
O que quero mas 
Só consigo parte,
O resto do tempo,
Existo presente,
É o que sou vivo,
Não sei se daqui
Me perdi, não sei
Se quero ter esta
Alma tão cá dentro,
Em silencio, não sei
Se fui eu, ou serei
Meu maior medo
Ao olhar um mundo,
Que não é mesmo
Nem me reconhece,
Tampouco como seu…





Joel Matos (07/2017)
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Seda negra.







Negra Seda
Lanugens de jovem em cadências de pele acastanhada e levemente rosada evolucionam gradualmente e finalizam em deleitosos montículos, que se elevam tesos em amendoim tostado. Melindrados, sentem-se inchar ao toque subtil dos lábios, pelo menos na febril imaginação de Emílio repassava esse sentimento.
Procedendo da elegante linha de cintura forma-se um delta bem negro, num profundo, algo intangível lago fundo onde assentavam longas pernas em seda preta clara e luzente.
Toda uma elegia voluptuosa enquadrava um delta, onde um vórtice umbilical se espraiava em harmoniosos declives.
Deslumbrava-o o esplêndido corpo de menina moça sentada ao seu lado na pick-up amarela cor de milho e deixa-se conduzir num cosmos paralelo e sem culpados de negras sedas e encarnações de volúpia incontida.
Surge uma penugem densa no decote de Cíntia, estende-se progressivamente ao fundo de um lago mudo e uma outra linha carnuda assoma debaixo, ladeia e distingue-se suavemente um, dois montículos rígidos, mais claros que os culminam e se vêem sob a blusa fina.
Em cada gesto dela sente-se equilíbrio, o corpo desfila num sem fim sensual de ténues curvas magnificamente produzidas em tons de seda prata,
Longos fios, como cascatas em torvelinho ladeiam um rosto discreto em castanho de voracidade branda.
Sons macios de seda e cetim expressam-se nos sentidos de Emílio ao menor movimento dela.
O Colo elevado e levemente inclinado, permite que a catarata de cabelos repouse sobre um dorso modelado e enlace com as nádegas fixas do corpo negro e delgado da jovem.
Ao lado dela viaja mudo Emílio que sente a tensão sexual aumentar ao ponto de quase explodir ao mesmo tempo que imagina o corpo nu da jovem companheira sentada ao lado, invade-o a sensação de predador face à corça e decide atacar …
– Cíntia debate-se falsamente e por curtos instantes, depois deixa-se ir ou antes, deixa-se ficar, Emílio não era velho nem muito mal parecido, camponês dos três costados, pai mãe e avós, caboclos de mãos calosas e mente também ela calejada pelo sol e pelo seco sertão.
A renda branca da cueca de Cíntia cedeu como “teia-de-aranha” às mãos de Emílio que apesar da violência tenta dizer ao ouvido de Cíntia algumas palavras no seu entender sensuais mas que soam a obscenidades, às quais não estava habituada mas que, em lugar de a deixar desconfortável incrivelmente excita-a,
Sentia-lhe os dentes a mordiscar devagar e com gentileza os mamilos cada vez mais inchados e volumosos.
Rendeu-se á investida grotesca deste homem que mal conhecia, talvez com medo das consequências mas por outro lado à descoberta de outra Cíntia 
Sentiu-lhe a língua a percorrer cada nesga de pele castanha /negra e esbelta ficando atrás uma sensação de querer mais e mais o corpo rijo maciço e roliço dentro dela o mesmo que ela sentia teso rolar de encontro ao ventre e nas virilhas e depois navegar por ela dentro sem pedir licença nem permissão pra entrar, primeiro roçando levemente os lábios, a boca e penetrando depois devagar na boca mal aberta inicialmente como depois por entre os lábios vaginais rubros de tanta esperar pelo prazer prometido por Emílio. 
A imaginação de Emílio ficara aquém da real feminilidade daquela mulher que se dava a ele tal qual uma mansa gazela aos dentes da fera brava.
De tronco dobrado à mão gigante pela cintura com força muscular bruta ele sujeita o corpo dela de encontro ao seu como que gerando um outro na pressão sexual e símia de dois seres opostos e de origens diversas,
Arrasta-a pró meio do capim macio de cheiros a hortelã-pimenta e rosmaninho como se fosse a recompensa de onça,
Ela sente o órgão rijo mas macio de Emílio como se fizesse parte dela, preenchendo-a fundo
E de tal maneira que não queria que terminasse esta avassaladora viagem de auto-descoberta, essa tesão que desconhecia ter tão alerta dentro de si.
Também ele não queria deixar de habitar ou possuir o corpo belo da jovem, não queria mais sair de dentro dela, como se fosse pertença única e exclusiva de macho Alfa, despojo de guerra, nesse momento dá-se a explosão de ambos, tal pirotecnia quando vários jactos de esperma morna e o lascivo, dilacerante orgasmo deles que se conjugam num grito tal o de Ipiranga.
Libélulas pousam nos fenos e cigarras cantantes calam-se por custos instantes retomando a actividade enquanto repousam exaustos estes protagonistas súbitos dos prados
Deslumbra-se ele de novo perante o corpo cansado de menina adulta deitada ao seu lado na pick-up amarela cor de milho…negra seda,
Cíntia descobrira o natural poder de ser menina e mulher sob um céu em azul topázio e safira …
Joel Matos (07/2017)
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Cheio de nada ter





Cheio de nada ter
Verdadeiramente vejo
Tanto quanto a um cego 
Seja distinto ao tacto o que 
Parece um sussurro, 
Sendo minh’alma 
A murmurar suave
Suave que outras almas
Silenciam e negam tanto,
Ficando secas sem nada,
Assim com’à minha 
Cheia de não ter nada,
De facto sussurro e 
Mais parece ser brisa
Ou de verdade seja
Cheio eu de nada ter,
Nest’alma levezinha 
Cheia do que sinto,
Tanto quanto um cego
Tem tacto e quanto sente
Assim sente esta cega
Alma e minha …




Joel Matos (07/2017)
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É a poesia parte ...









É, de inegável maneira arte, a poesia,
Só por isso existo e esta alma que pensa,
Inconsciente que está sonhando, suave
O sonho, claro qu'é "vida-sentido-único",
Só porqu'isso existe e são meus braços e

Cansaços, sonho sem sentir aquele sonhar
Perfeito que se pode afirmar ser maior arte
Ou apenas consumo de mercearia, detergente,
Mercadoria "a-metro", falo p'los cotovelos,
Ensinei-os a mentir com sentimento qb.

No entanto não canso de prometer a mim 
Mesmo um fio de cabelo com o pensar d'prata
Numa ponta, assim oval quanto o imenso
Universo, que é a esperança de ser tud'isso,
Só pra isso existo tod'eu, suposto Rei-Sol, 

Deposto quando a serenidade da manhã 
Acaba e se torna relento de fim-de-tarde,
Que sentido esta'arte de ser o tempo todo
Eu e não ser minha a fé, que a outros sabe
Tanto a sucesso e o meu falar implora

Essa inigualável maneira e forma d'arte.



Joel Matos (07/2017)
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Te vejo a duas vozes …







Te vejo com duas nozes castanhas
Entre mim e os cabelos e nem mudaria na face
O ciúme que sinto d’entre o nariz e os pelos,
Dizer o contrário não será ou seria sincero,
Te vejo como duas nozes e coro ao dizê-lo,
Mesmo que fique entre mim e o cabelo,
Te beijo eu, sincero te vejo como duas nozes
Entre cento e uma, a outra sou eu, belo 
Quanto a figura de Euclides, gloriosa
Que nem o Restelo à partida das caravelas
Em Janeiro, assim eu penetre no que
Penso ser meu íntimo profundo,
Te vejo como duas nozes, oxalá pudessem ser em
Veludo quente, tanto o que sinto e sonho
Sentir ou tento, te revejo a duas vozes,
Oro que seja verdadeiro esse místico sentido 
De ver e ao mesmo tempo ouvir, vinda 
De outras dimensões a magia espiritual
Que me guia como que por encanto,
Mesmo que fique entre mim e o cabelo pouco,
Te vejo com duas nozes castanhas.




Joel Matos (06/2017)
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Doze

Doze -Doze nós, tem uma figueira Ao medir-se dentro de nós, em vidas Que a gente tem e não sabe explicar, -Doze é a di...