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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2015

Ciclo de escrita.

Para interromper o ciclo de escrita, Quero ganhar em parte, o que tenho de prazer, Em ser ferida sem crosta e quanto, Dessa crosta escarafuncho, até ser de novo
Ferida, poucos sabem o preciso que tenho, Não resolvido, de procurar beleza à minha custa, Nos dentes muito podres dum vagabundo, Um ganido num latão do lixo do bairro da Belavista,
Quando escrevo sou isso e mais disso, Não sou eu que fala por mim, nem a língua Mas a imaginação de quem me vê e sinta inquilino, O prazer que sinto e passa em mim,
Para interromper o ciclo da escrita, Quero interpretar do mendigo ao proxeneta, Quero ser bandido, maneta, força, natureza, Aleluia e o que precisarem de mim, maçaneta
Do vosso pensamento, se me falta nas palavras Que tenho evitado dizer, escritas abaixo Desta cintura gorda que classifico de escrita arte,

Nada em mim mora...

Nada me pertence mais que as memórias do que sou e uso, Sirvo tudo o resto e acabarei por esquecer, nu e em branco sótão, Como tudo o que faço, fazendo disso que se chama jantar, Com a ilusão um acostumado raso prato, juntando-nos no alto desvão,
Ou divisão de barraco que em mim mora, pode ser amanhã ou foi noutra Era d’antiga hora, onde não existo nem quero insistir, fora d'portas Nada me pertence mais do que uma trouxa e a memória destas notas, A afirmar que estou eu entrando no sonhar que esquecer quero, recuo
Senão quando o ouço clamar ao ouvido insincero dizendo adeus, Como sonho d'ido embora - esqueça o que diz meu barraco coração, Agora mesmo e se chora partido perdido e sem historia ou vanglória, Mas conscienço-me que foi por outro estado novo, estrada que não vou,
No meu ir, fui noutra e minha e vou plas masmorras que minha vinda Sentiu e soam no passado que sou e me mal'agrado ou mal'magradeço Do limite que me limita a felicidade que volta na memória esteira Minha e desses …

Malmequeres...

Eu não sei que familiaridade tenho Com os lábios, a monte anda a crença Que me abandonou no que digo senão Posso ser eu capaz de fazer rir e Chorar
A 1 tempo pois não passo de um charlatão, como posso passar eu rente a outro Que amar-me eu não, quando o faço Apenas pra que tenham saudade,
Deste familiar má peça, sem nada Pra dizer que seja novo ou verdade, Não quero saber o que sentes, Baixo os braços se subires os teus,
A febre abandonou-me, a família Que não acho sempre esperará por mim, Supondo-me uma ilusão de óptica Esquecei-me pra sempre, esqueci eu
O sentir e de tudo quanto fingi ser Sou nada, sou um fulano malquerer, Desenho mundos em flor, ovais Excepto o pensar delas e o ser,

Com a mesa encostada aos lábios...

Com a mesa encostada aos lábios, O silêncio obedeceu aos meus trapos, Trata-se apenas de usar chapéu, Para que a solidão nos não nos meça,
Obliteramos nas mãos gestos banais, Conciliamos silêncios e baraços, Com embaraçados nós de caules flores, Construtores de janelas de um só vidro,
Inexpugnável à condição de bala, besta Geração, palha atalho, sem rastilho Gentalha, sem sonhos é a soma Do cérebro à regra da esquizofrenia
Congénita, réu da solidão, absolvo-te Broca indubitável, conceito, consciência Do falhanço, da arte de perecer, Segues o teu caminho sem parecer
Seguires estelas, astros e o que te envolve Do Inexplicável pertencer ao chão de Gaia, Numa sala de estar arrumo d’vasilhame,

Meto os chinelos na beira da cama...

Meto os chinelos na beira da cama,
À cabeceira, o que acreditava, aos pés
A moldura do Cristo com a chama
No coração fixo e a silhueta

Que me espera na sombra do hall ,
De noite, enorme, maior do que eu
Pensava ela ser, ou pudesse ter
A sombra do vão, - do nada me chama,

Meto os chinelos na ponta da cama,
No lado oposto de tudo que lembrará
Ao mundo a minha estranha estória,
De tudo que não compreendi, nem disse

Por dizer, tudo o que leve a sombra,
A mão que deve-me levar da vida
Pra fora, da cabeceira para o vão
Alçapão, incerto vaso onde não tive,

Nem creio, entre o céu, o mundo
E o agora, meu limite tem cerca,
Meto os chinelos na lomba da cama,
Pois no hall o universo espera, pára,

Concebê-lo, eu consigo, mas entre
Mim e ele há um limite e tudo isto
Que é, existe entre ele e mim,
Sem ter de ser assim maior, o medo

Do que ele é na raiz da minha pele,
E no cabelo.

Joel Matos (01/2015)
http://joel-matos.blogspot.com

O poço do oráculo...

Há um Deus benévolo em nosso ser, Ouço-o brincar com símbolos e enigmas, D’algumas realidades de minh’alma, Têm uma pluralidade igual à que um druida tem,
O condão de dizer verdades inteligentes, E outras mais ou menos, como intenção, Há um Deus benévolo em nosso Endovélico ser, E a metáfora é a voz, no poço do oraculo,  
Pode ser que recorramos à metáfora Dele, Por referência aos sacrifícios sagrados Humanos, mas não devemos amputar nós, A alma pra fazer entender outros p’la voz
Quando recorremos à intenção Dos órgãos, de sonhar também e não Se fazerem entender pelo de pensar. No pensar de outro sagrado ser, eu,
Pode ser que a oferta de nós Num sacrifício do ser nosso (ou vosso) A outra fábula ou outras expressões Pra'lém do que se diz, dizia… concluído
Sem conclusão mas de propósito,

A viagem a talvez...

A viagem a Talvez…

Precisei de vir, pra chegar aqui, Não preciso reclamar a chegada, Mas a bagagem de uma vida sim, Porque a viagem não é um desejo,
É uma obrigação, apesar Da partida não ter sido reservada, Mesmo assim fazemo-la A partir de quando se nasce,
A bagagem é o processo e o conteúdo Do caminhar que se quer lento, E medido a palmo, de que a jornada É apenas um meio físico, o veículo, a escada,
Que não conta à chegada, Mas numa vinda que se quer serena, E a sorrir de uma forma rural, Abençoam-me inclusive os pregos

A Terra em dúvida...

A Terra em dúvida
Nada na Terra está errado, o lado
De cima nunca pode estar pra baixo,
Nem o subir da maré é pro lado diverso,
Que se movimenta o planeta todo,

(Duvidamos provavelmente que assim seja)

Nem há lei dos Homens que obrigue,
Porém há uma questão que se põe, urgente,
Alguém me disse certa vez que sentiu a terra
A falar e quis sentir meu o estômago desta,

Com o ouvido interior no bosque de carvalho,
E o solo por arar, atento ao falar do vento
Certo ou a um canto de sereia, uma prece
D’alguma flor murcha da terra e órfã da sorte,

Ou a brusca voz da serra gelada ou da geada,
Mas nesta terra natal, nada estava mal ou errado ,
Apenas o meu ouvido imperfeito impotente, doente
Deixou faz tempo, de ouvir do mundo a dizer,

Pra me ouvir a pronúncia ou a ti próprio…
Dos sonhos que imaginamos nós, Ela-Terra ter,
Pra lhos usurpar entretanto, enquanto rola, roda
Nas marés do mar de que vai cheia, partilhando
(Talvez o amor por nós, sem que em dívida o peça)

De cima a baixo, de baixo a cim…