quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O meu préstimo.



Não sei se “m’apresto” ou se m’avenço,
Nem sei que préstamo tenciona
O dom me emprestar nesta Terra...
Nem o que ela me cobra por ser

Vivo ancião-penso só no presente,
Porquanto no contrário ateimo,
Se viver no passado dispenso
O agora e só, quadrado compacto,

Mas não separo os dois deste lego,
Por temor um ao outro, por bom senso
Ou pelo receio que infecundo é
Seguir no futuro trem astral e atrasado

Demais pra curva-atada dupla,
Da Terra turba e eu nela aposte
E apenas nela, da margem noja,
Low-cost ou Prada céu-da-boca, (sei lá),

Sem que eu a ela acresça, em cena
Agora:- A minha aparente conquista,
Desta feira-d’aluguer e eu, louco-d‘aldeia,
Que se chama Terra-minha-acanhada,

-Não sei, ao menos, se me apregoaram
Devidamente à entrada em palco,
Mas ouso enfrentar-vos aos dois,
Passado e futuro, num só tempo,

Em via de ferro dupla e curva,
Sendo eminente, a catarse dum
Espírito meu, obediente sub-fogo-fátuo,
Não crendo seu supra-préstimo,

De vidente de feira da ladra,
Sem pago de mestre nem mester,
Pago por medalha grega d’vintém
Ou magro ornato de oiro pálido.


Joel Matos (11/2014)

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Na extrema qu'esta minh'alma possui.




Se a alma fosse minha extrema
E eterna a clareza que cresce,
Ao longo de meus dedos,
Mesmo de olhos vendados,

O terreno ermo vizinho,
Seria planície, solo arável,
Mas por sorte, ou sem ela,
Nada sou, nem orvalho,

Quanto mais destino
Avençado, paixão fértil,
Sou um sem terra, grelo eunuco,
Onde o deserto é chão nu,

Fecham-se-me os olhos,
Suspendo a natureza esta,
Renego a álea e o caminho
Estéril do trabalhador

Sem trabalho, cansado
De atar a alma ao extremo
De si mesmo, como um mastro
 Na distante lua.

Gracejo com o espelho,
Inexplicável ilusão de velho,
Ou um sentido solto,
Que desconheço.


O que poderei dizer,
Pra  que me entenda
Eu, que nem falar sei,
E o ver-se me acaba

Na extrema qu’esta
Minh’alma possui.

Joel Matos (10/2014)

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Mal m'alembra o futuro.


Mal m'alembra no futuro,
Onde eram os mares, sete,
As velas da lida, o combate,
O luto do cais do frete,

Mal me lembro dessa gente,
Tosca e humilhada, sem nome,
Fardada de mar e fome,
Que fomos e seremos, sois…

Escassos nossos medos,
Duras as mãos e os dedos,
Potentes éramos então,
Aterrávamos impérios,

E imperadores, Bastiões
Caíam, tal capões d’arena,
Amainava-mos os ventos
E os temores dos mastros,

Mal me lembra essa gente,
Velhaca, à minha imagem
D’algum dia, que chamava
Minha e esperança, cabo,

Orienta-me o coração,
Esta gente de um sequestro país
Impaciente, que agora
Não, agora não…

Desgraçados, obedientes,
Pisados por gosto,
Só as pedras e o chão
Até mais não, até mais não

Até não lembrar mais,
No futuro, que mar oeste,
Era esse e essa gente,
Que não lembra o futuro,

Nem me orienta o coração,
Pra seguir em frente,


Joel-Matos (11/2014)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O gebo e o sonho.




Quero morrer de vez e enterrado pra sempre,
Não terei na cartola o axioma do sonho
Nem tirarei qualquer máxima à pena,
Mas morar de mim fora, d’ora
Em diante e apenas, sim, tenho,

Tenho paladar do infinito ao etéreo, insólito
O lugar em que mais sinto imenso, indulto
No ser, é no ser apenso do ser Ser, que invicto
Será, ou talvez seja mau pensar, pensei sendo
Advento meu doutro pressentir desmedido dom.

Como pensei, o facto de escrever e a facilidade
Com que vulgarizo a opinião, fazem duma saudável
Imaginação, uma censurável ofensa do meu jargão
Grosso, ao ser que suspenso, no coração crivo, sirvo
Do apocalipse numa velha batedeira de bolos,

Instigo e contradigo por covardia, como fosse eu
Aliado a um deus adenda, pra me parecer ninguém
Ou Génio desempregado da Albina lâmpada.
Tanto do que já senti, sonhei-o sem mãos, tantos
Sonhos irmãos tive em criança, sabidos ,espertos,

Eram meus, sem os querer por horto de mosteiro.
Quando morrer de vez, para sempre em qualquer largo,
Quero olhar particularmente a realidade,
Nítida e peculiar da matéria que me escravizou,
Do mesmo modo que situo um gebo, na sombra da rua.


Joel Matos (11/2014)

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Que encanto é o teu...



Que encanto é o teu, encerrada do forte da desgraça,
Cerca-te a miséria da descrença e a mansa murraça,
Que encanto é o teu, que possuis meus ais e meus
Vergões e os manténs na passagem do poial do juízo,

Tens a consciência dos minerais e os sonhos naturais,
Em filas, concêntricos como outros que encantas
Têm e não sabem expressar, senão no pensamento,
Que encanto é o teu que guardas a vergonha e retrais

O sentir bera, pra sentires com os poros puros, por extenso
A plenitude dos pulmões na voz dos evidentes clarões
Que impelem a liberdade - que tu és e pensas,- viajam
Como pedras rochedos e granadas por causas,

E o encanto teu resgatado dos florestais relentos,
Que encanto é o teu, pousado no ombro e cotovelo
Por onde as abelhas fazem mel e sorris súbito,
Repentino, quando uma folha te roça o rosto perene

E virgem de moça e o fascínio começa, esvoaça
Consentido p’lo encanto eterno que a alma tua goza
Que encanto é o teu nas glosas que incessantemente
Convocas as hostes das minhas tropas pacatas fracas

Para guerras que ninguém vê, nem lembra na Terra,
Mas de qual tu, rainha, contas como glórias certas,
Causas justas, evidentes no sémen que brota e grita,
Qual vagem lançada a terra, num inominável recomeço

De esperança nesta terra de ameias, desgraças e peias,
Que encanto é o teu? Mulher Criança, Natureza Mãe,
Confiança…


Joel matos (11/2014)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

João Sente-Sóis...




João sen’campo nen'terra, João sente-sóis


Nasci tão complicado como um ser, qualquer um,
De infinitos nós, perfeitos, carecido d’asas e voar
Pra ser feito e meu o altar em qualquer espírito
Livre da água leito e terra Magna igual à minha,               

Lugar triste, sozinho. Aves do campo dela. vêm mirar,
Viesses tu, à tardinha ver-me, lavrado sobr’terra,
Com’as outras aves do mar, nu sentirias,
Ancorado meu corpo ao solo como na alma minha

Só se pondo no meu olhar gato, de peixe pampo.
Há primaveras, tantas, tontas no meu viver,
No voo de campo em campo, cavado, daí beber,
Nas plantas de tua mão, ave, supondo eu -O Saber.

Triste sozinha ave, meu copo no teu altar astral,
De boda, vem de noite dormir, beber meu hálito, 
Debaixo do beirado, de bico baixo e d’asa torta
Abrigada do vento, tempo adufe e sem causa,

Vem, avezinha triste e vizinha, dar-me teu tempo e encanto
E tecto a mim, que sozinho estou, no meu campo,rio frio,
Avezinha tanto, desentristece-me avezinha encanto,
Com o canto teu, som da Terra. vinha..tenta, entra,

Canta lenta...tentacanta e encanta-me,
Vizinha triste, ave do campo sente, meus curtos bemóis,
Desenterra o canto, lê-me na voz de-quem-me-dera,
Entender a razão, da fome e dor, desta amada Terra,

Pois nasci eu, antes de nascer a Terra toda, quando
A realidade que me rodeava era rasa e bera
Campa e é aonde ando, andamos, clã sem terra,
João sem’campo, João sente sóis, quem me dera depois,

Por quanto, não senti nascer campos louro em pedras,
Pudera, tal abundância não se cria d’terra feia,
Nem no que se diz ter, ao nascer, o grã-canto das Aroeiras,
Flor,portanto eu canto, as vizinhas aves do campo, pobres…

Sem no branco pisar, porquanto era já espírito e ar,
Quando o mundo era pequeno e praticável e Amor
De quem sou eu? Tão complexo como uma flor d’estio
Que se crê ter alma completa e bem, serei também.

Nasci antes de nascer, sou natural ramo, fumo
De uma coisa quase banal que se chama coração,
E amo o espaço que se pensa vazio, a razão clama
Na minha frente, amo o entardecer, magnífico.

Como se houvesse verão cedo, bora a chuva caia, fria,
Pausa um vento, por tudo que em mim foge,
Sinto-me original no que sinto e fere
-Uma ilusão de Acácia ática folhosa, da enseada,

João sen’campo, João sente sóis, João sen’terras
Talvez seja verão perene (penso eu e a franca arvéola)
Todo ano, as folhas sintam a minha seiva a galope
Com’um vulcão, sedo o calor da vida que me aloje

E o entardecer que me foge no momento
Cedo é ainda e a chuva que cai, forte e fria
Caía na minha frente, nascia nascente, corrente
Fonte e indiferente e eu enxuto, inexacto...cedia

Cedia ao meu coração-fogacho de fusão ardido-
(Tal fosse físico, fá-lo-ia paradigma no meu coração)
 Faz-me dor a paisagem e a margem quando flui de mim...
Paisagem, quanto pobre ave do campo,

Vizinha por sequela, vem Adélia meu amor,
E eu paro pra vos dar o meu amor-solo da terra dela-
TERRA BELA…Adélia meu amor.
João sente-sóis…


Joel Matos (11/2014)

Às vezes

Às vezes, o que resta na mão nos foge, Tal e qual como num livro a palavra fim, Sinto um vidro fosco ente mim e essa luz Que me ...