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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2013

Pobre senil o que conta o tempo e passa de rompante...

Conheci um ancião que desconhecia as horas, Supunha eu que queria esquecer-se delas, Fatigava-o o tempo e a orbita dos ponteiros, Media a data pela luz que caía por atrás dos óculos,              
Não precisava dar corda para auxiliar o passar do tempo E a jornada, não precisava de nada pra se lembrar, Das rugas ou se a primavera desse ano, chegaria mais cedo. Encontrei-o num beco qualquer- pareceu-me vê-lo chorar-
Como qualquer outro faria, perguntei, sem razão: (Não que quisesse saber, mas por mera simpatia-como ia!?- Afinal conhecia-o, como mal se conhece qualquer ancião, Baixa-se os olhos e finge-se pressa, mas com cortesia.)
     -Perdi o tempo que a vida me deu no começo, Mas acordo sempre com a alma submissa ao dia, Confiando no mistério que é a vida e no ritmo do universo, Fi-lo conscientemente, com convicção divina e sabedoria,
 Aprendi a embalar o vento, nas batidas do coração… A floração à luz da lua, na suavidade da noite, a textura dos céus, Na frescura das manhãs - nem sabes tu, como é a …

Quando eu morrer actor...

Anónimo o que recito mas não o que aceito, Como meu, anónimo o que visto doutrem e dispo, Alegando meu porém, anónimo tatuado por delito, No peito, anónimo tenho todo o meu falso corpo.
Nada me ocorre que não seja d’outrem, Sou a aragem do logro que percorre a tumba Dum morto, dando vida aos que jazem e aos que sobrevivem, Faço parte dessa paisagem lobrega e romba
E de que, os pertences escritos rouba Aos notáveis mortos, um pilhador de túmulos, A eito, profanador até do sagrado kaaba… Ignoto o suor dos meus impuros poros…
E o acto de escrita pouco lógica e de louco… Se nem, o colchão em que me deito, é meu… o poluto Fato, roubado no museu teutónico. Por isso, quando eu morrer actor,
Jamais a noite se tingirá de luto preto…
Joel matos (01/2013) http://namastibetpoems.blogspot.com

Dai-me esperança...

Dai-me os dias que lá vão, Dai-me as mãos do velho, Que não sendo minhas são como as de um irmão, Dai-me a tempera dos vinhos E a profundeza das vinhas E dos lavrados rostos dos avós, Das charnecas e das flores no Maio, Da ribeira a aguar e do pardal a piar, Dai-me o que não tenho, Uma manhã mineral e um sorriso a dois, Partilhados em linho e mel, Um vale, um postigo e uma tocha pró caminho, Um castigo merecido o chinelo e o berro da criança, Dai-me o áspero bramido do gado, A terra descalça e a mulheraça roliça, Dai-me os sinos d’aldeia, um candeeiro e um padreco,   A alcateia, a caça e o estio, Dai-me o que não tenho, A imensa esperança e o orvalho na floresta, A roupa lavada no rio, Dai-me um pintassilgo e o silvo do melro, O ladrar do cão e o ovelhedo, Dai-me a graça dos dias que já lá vão, Da velha quinta, do madeiro natalício e do porco, Da matança…do sorriso da vizinhança, Dai-me esperança porque da pouca que tenho, Sobrevive est’alma… …e da mencionada lembrança

Joel Matos (01/2013)

pressagio de tudo por quase um nada

Eu sei que pressagio de tudo por “quase um nada”, E se de alguma coisa haja que me desconvença, È porque nem mereça quiçá a pena Profetiza-la, sabendo-a provisória, resma miúda.
Tudo o que já foi e ficou dito não mais o é nem será, Desde que não mais me soe ou sinta essa má sina, Mas se parece doer a dor que já me não dói até, É porque o ontem falhou, findou a trégua, acabou …
Pra trás ficou enterrado o palio vício, da simples fé Do ontem, que me deixou assim vencido, prostrado, cansado. Mas o que me deixou sim, vazio… foi uma filha doutra fé, Só porque endoideci, me deixei ir e fui, na maré…
E hoje o dia é já outro, embora com este pouco se pareça, Nebuloso e frio que nem a margem do cadafalso, sem armistício, Pálido como o jugo de perfil da rês, pouco antes da matança, Lírico, como o lúcio litúrgico banhando-se nu, num rio..
Entretanto o povo troça, a corda roça, lassa, o meu coração, Parecia distante mas, de perto, vejo tece-la, uma cobra branca… Negro o cortejo e os gritos do gentio,-morte ao …

Ainda hei-de partir por esse mundo afora montado na alma d'algum estivador

Tenho a alma tosca d’um estivador, Que tanto me dói de tão dura, Não fosse furada por uma grossa goteira, Não teria maneira d’achar outra dor,
E eu estimo o que por ela andei, P’las milhas em meu redor, Amachucando no íntimo a lei, Que dizem que existe no país do rancor.
Lastimo estas dores ilegais, P’lo que delas na alma ainda perdura, Mas da pele tesa dest’estivador do cais, Gretou apenas a branca rija salmoura,
Por dentro, ond’era mais precisa, Permanece fluida e convive, Comigo de forma branda, religiosa E leve…
Tenho alma d’estivador sem terra e sem destino, Olhos prenhos do que no mar em redor Encerra, embarquei na noite, clandestino, Numa caravela e posso finalmente rir sem pudor...
Por esse outro mundo afora…
Joel-matos (01/2013) http://namastibetpoems.blogspot.com

Venho assolado p'lo vento mudo e tanto...tanto

Sinto de repente tão pouco,
Sumiu-se a poção do falar, Mãos mil atadas por visco, Desobrigam-me de acção,
Mas contínuo vazio, se luto por me soltar, Opto por me deixar Prender, se não me bato, “Foi –se tod’acção, se-calhar“
Pudesse fazer-me eu sentir nos versos. Muito mais são, que louco Porquanto sinto de repente tão pouco, A não ser ideias - a sós
Com que tempero o pensamento. Vejo vistas, telas em que só eu me iludo, Venho em tornados que sopram muito vento Mas sinto a maior solidão do mundo
Em redor de mim… todo- faça o que faça- Sinto-me de repente tão pouco, Que até as mãos me convencem, De que estou de facto, ficando louco,
Mas, o que de mim, vier alguém a ler, Será o contacto efémero Que mais perto hás-de ter, Do fundo e puro sentir d’outro,
Sim, porque eu sinto tão pouco, Que nem a'spada fria m'atravessando, Nem a agonia dum povo, nem o corpo, Que m’arde, nem a tarde, nem o cedo
Emprestam sentido, ao meu sentir, Tão pouco o sol qu’m’invade, desperto; Mas dormindo, sei sempre, sempre d’ond vir,