As palavras que me fitam


Nas palavras que me fitam,
Sem pudor,
Infinitamente complicadas,
Abundam meadas,

Da minha ignorância,
Deslembradas trincheiras,
Em conflito
E em guerras alheadas

Das minhas dispersas fronteiras
E nos estilhaços
Das vidas que nem vivi.
A sombra,

Ameaça-me o pensar
E a lembrança,
Das coisas belas,
Que não pensei;

Deixei-me guiar por completo,
Como folha em branco
E ao natural vento,
Nele me espreguiço

E me rendo esquecido.
Nas palavras que me fitavam,
Só sobejo no que sinto,
Morreu o que desconheço

Se tudo o que sei
É o que procuro ser,
Como se tivesse lavado delas o sentido
Num rio de pedras quinadas.

Mais límpido e nítido,
Definido como gelo frio,
Incorporado como fluido nas veias.
Confesso-me confuso

Porque quando estas me fitavam
E encandeavam
E controlavam as minhas ideias,
Só elas me faziam chorar.

(As palavras que me fitam)

Joel Matos 03/2011

ciclo fechado


Todo um ciclo foi concluído,
Apesar de nem começo nem fim conter,
Num momento pareço de consciência abonada,
Noutro mendigo no escrever o bem parecer

E recomeço onde nunca acabo, cercado, esquecendo
Que em rodo das paredes do Cárcere
É sempre ao meu fracasso que Fedo
Como ranço da carne a apodrecer,

E o que, no livro, acaba, aqui no enredo
Não, em mim sim, barbeiro de mau carácter
Morto por dentro e azedo a cada manhã que acordo,
E sedo-mas, ainda assim prefiro acordar a temer

Não encontrar a razão no outro lado,
E o pensamento claro, (mesmo a fingir)
E que as minhas palavras digam algo,
Que eu próprio saiba infimamente atingir,

Do que não acordar de todo,
E ser um fulano com’outro qualquer,
Com princípio, fim, e meio indefinido,
Meio Esquisito, meio esquecido, passado,

Portanto, dou o ciclo por terminado
A meu ver não digo nada diferente e quem me ouvir,
Será apenas d’ouvido e duvido se por’í’ando,
Ao vivo, ou a preto e branco, no sonho dum ser sequer.

Joel Matos (03/2011)